O BRASIL NÃO É QUINTAL DE NINGUÉM
Às vésperas das eleições, o fechamento das representações diplomáticas dos Estados Unidos levanta perguntas que o Brasil tem o direito de fazer.

Há momentos em que uma democracia precisa mais do que votar. Precisa estar atenta.
O Brasil chega às urnas neste domingo, 4 de outubro, para o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, em um ambiente já marcado por forte polarização política, disputas econômicas, tensão diplomática e acusações de interferência estrangeira. E, justamente neste cenário, uma decisão tomada pelo governo dos Estados Unidos acrescentou uma pergunta incômoda à agenda nacional: até onde Washington pretende ir para defender seus interesses políticos e estratégicos no Brasil?
Na sexta-feira, 2 de outubro, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília e os consulados americanos em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre suspenderam o atendimento consular, alegando preocupações de segurança. A medida ocorreu apenas dois dias antes do primeiro turno. A Austrália também suspendeu atividades diplomáticas em Brasília.
A justificativa oficial é segurança. E segurança é assunto sério. Mas democracia também é.
E, quando uma potência estrangeira fecha simultaneamente suas principais estruturas consulares no país exatamente na antevéspera de uma eleição presidencial, sem apresentar publicamente detalhes sobre a ameaça que teria motivado a decisão, é perfeitamente legítimo que a sociedade brasileira faça perguntas.
Não se trata de afirmar, sem provas, que existe uma operação americana destinada a provocar tumultos no Brasil. Até o momento, não há evidência pública suficiente para sustentar essa conclusão. O próprio Departamento de Estado nega que a medida esteja relacionada a uma tentativa de interferência eleitoral. Mas também seria ingênuo imaginar que decisões diplomáticas dessa dimensão não produzem efeitos políticos.
O PROBLEMA NÃO É APENAS O QUE WASHINGTON DIZ.
É TAMBÉM O QUE SUA DECISÃO PRODUZ

A Polícia Federal informou que realizou, no próprio dia 2, duas buscas e apreensões relacionadas à apuração de um suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco instalações diplomáticas dos Estados Unidos. A PF classificou a iniciativa como preventiva e afirmou que, até aquele momento, não havia encontrado elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados nem identificado suspeitos ligados a organizações criminosas.
Esse detalhe é fundamental.
Se havia uma ameaça concreta, é obrigação das autoridades investigá-la. Se não havia elementos suficientes para confirmá-la, também é obrigação das autoridades esclarecer isso à sociedade.
O que não pode acontecer é a criação de um ambiente no qual a população brasileira seja levada a imaginar que o país está à beira de uma explosão política justamente quando milhões de brasileiros se preparam para exercer o direito de voto.
Porque o medo também produz efeitos políticos.
Uma democracia pode ser desestabilizada não apenas por tanques nas ruas. Pode ser pressionada por mercados, tarifas, sanções, campanhas de desinformação, declarações diplomáticas, ameaças econômicas, manipulação de narrativas e criação artificial de ambientes de insegurança.
É exatamente por isso que qualquer suspeita de interferência estrangeira precisa ser investigada com seriedade para evitar a repetição de golpes no pais como já houve no passado com apoio dos EUA em 1964. Não devemos cair no conto do vigário acreditando que tudo não passa de teorias conspiratórias. São fatos graves provocados pelo governo de uma potência militar que pode se tornar em combustível e pretexto para ações de radicais.
HÁ ANTECEDENTES DEMAIS PARA SIMPLESMENTE IGNORAR
O contexto não começou em 2 de outubro.
Durante 2026, o governo Donald Trump ampliou a pressão econômica sobre o Brasil. Em julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros, no âmbito da investigação conduzida sob a Seção 301 da legislação comercial americana. Washington justificou a medida com uma longa lista de divergências envolvendo comércio digital, tarifas, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento.
Portanto, não estamos diante de uma relação bilateral inteiramente tranquila. Há interesses econômicos. Há interesses geopolíticos. Há divergências ideológicas. Há disputa por influência na América Latina. E há, sobretudo, uma eleição presidencial brasileira acontecendo no meio dessa equação.
É nesse ponto que o Brasil precisa deixar de agir como país periférico e começar a se comportar como aquilo que efetivamente é: uma das maiores democracias, economias e potências territoriais do mundo.
A AMÉRICA LATINA NÃO PODE CONTINUAR SENDO TRATADA COMO QUINTAL
Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos para a América Latina foi influenciada pela velha lógica de que o hemisfério ocidental deveria permanecer sob sua esfera privilegiada de influência.
Os tempos mudaram. O mundo mudou. O centro econômico do planeta se deslocou. A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil. Os BRICS ganharam dimensão econômica e política. Novas alianças surgiram. Países latino-americanos passaram a buscar maior autonomia nas relações internacionais.
O Brasil tem todo o direito de conversar com Washington. Mas também tem o direito de conversar com Pequim, Moscou, Nova Délhi, Pretória, Buenos Aires ou qualquer outra capital do mundo.
Soberania não significa escolher um império em lugar de outro. Significa não aceitar império algum.
Por isso, é perfeitamente legítimo defender que os países do BRICS mantenham uma posição firme em favor da soberania brasileira sempre que houver qualquer tentativa comprovada de ingerência externa em nosso processo político.
Mas o Brasil não vai trocar uma dependência por outra. Não queremos o Brasil como quintal de Washington, de Pequim, Moscou ou qualquer outra potência.
Queremos o Brasil como pais soberano para tomar suas decisões sem que precise bater continência para bandeiras estrangeiras.
SE LULA VENCER, O RESULTADO DEVERÁ SER RESPEITADO
Há outro ponto que precisa ser dito com absoluta clareza.
Se Luiz Inácio Lula da Silva vencer democraticamente as eleições - seja no primeiro turno, caso alcance a maioria constitucionalmente necessária, seja em eventual segundo turno -, o resultado deverá ser respeitado. Aliás, pelo respeito diplomático que sempre houve entre os governantes brasileiros e os governantes estadunidenses, Trump deveria ser o primeiro a reconhecer o resultado.
Democracia não pode depender do candidato que ganha. Essa é justamente a essência da democracia.
O que preocupa, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. É se todos os atores nacionais e estrangeiros aceitarão o resultado produzido pelas urnas brasileiras.
A campanha de Lula já pediu ao Tribunal Superior Eleitoral que investigue a suspensão dos serviços consulares americanos e a inclua no conjunto de fatos que considera relacionados a uma possível interferência externa.
E se houver provas de interferência estrangeira, elas precisam ser apresentadas. Se não houver, também é importante que isso seja esclarecido.
O Brasil não pode viver permanentemente de suspeitas. Nem ingenuidade, nem paranoia Não podemos ser ingênuos diante das grandes potências. Mas também não podemos ser paranoicos.
Os Estados Unidos têm interesses legítimos no Brasil. O Brasil também tem interesses legítimos nos Estados Unidos. Relações internacionais são construídas com interesses, negociações e disputas.
O problema começa quando o interesse de uma potência pretende se transformar em direito de determinar os rumos políticos de outra nação, pois é aí que termina a diplomacia e começa a ingerência.
E, se algum governo estrangeiro tentar interferir nas eleições brasileiras, deverá encontrar pela frente instituições brasileiras suficientemente fortes para impedir isso.
Não interessa se a interferência vier de Washington ou qualquer outra potência.
Eleição brasileira é assunto dos brasileiros.
O BRASIL PRECISA OLHAR PARA O MUNDO SEM BAIXAR A CABEÇA
O momento exige posicionamento. O governo brasileiro precisa manter canais diplomáticos abertos, dialogar e exigir explicações quando forem necessárias e preservar relações comerciais com todos os parceiros.
Ao mesmo tempo, precisa aprofundar sua política de diversificação econômica e diplomática União Europeia, países árabes, África, América Latina e, de modo especial, com a China e com todos os integrantes dos BRICS.
O Brasil possui território, população, recursos naturais, capacidade agrícola, indústria, tecnologia, energia, biodiversidade e uma posição geopolítica que lhe permitem exercer papel muito maior no cenário internacional.
Falta-nos, muitas vezes, apenas compreender isso.
HOJE A PALAVRA SERÁ DAS URNAS
Neste domingo, milhões de brasileiros irão às urnas. Não deverão votar pensando em Washington. Não deverão votar pensando em Pequim. Não deverão votar pensando em Moscou.
Deverão votar pensando no Brasil.
E, depois que as urnas fecharem, todos - brasileiros e estrangeiros - deverão respeitar a decisão soberana do eleitor.
Se houver segundo turno, haverá segundo turno. Se houver vencedor no primeiro, haverá vencedor no primeiro.
Se houver interferência estrangeira, que seja denunciada e punida.

Ã





Comentários