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Do Coliseu às Bets: Neymar, a seleção e o futebol como máquina de alienção

  • Foto do escritor: Editor BN
    Editor BN
  • há 10 horas
  • 4 min de leitura

O futebol já não entra mais em campo sozinho. Entra acompanhado de bancos, casas de apostas, plataformas digitais, conglomerados de mídia, contratos bilionários, algoritmos e interesses que fariam corar até os antigos imperadores romanos. A convocação de Neymar para mais um capítulo da novela da Seleção Brasileira não é apenas um ato esportivo. É um comunicado do Mercado. Um anúncio corporativo transmitido em horário nobre. Uma ata assinada entre capital, espetáculo e manipulação emocional coletiva.


 

Neymar não foi convocado apenas por Carlo Ancelotti. Foi convocado pelo sistema.

 

E talvez seja exatamente por isso que a velha pergunta volte a rondar as mesas de bar, os grupos de WhatsApp e a consciência de quem ainda tenta assistir futebol sem anestesia: vale a pena torcer quando tudo parece previamente roteirizado? Quando o espetáculo já nasce editado para cumprir interesses econômicos e midiáticos?

 

Há muito tempo os comentaristas esportivos deixaram de ser analistas. Tornaram-se personagens da peça. Participam do espetáculo como atores pagos para sustentar a narrativa. Com raríssimas exceções, já não informam: conduzem emoções. Vendem esperança industrializada. Produzem indignação calculada. Criam heróis descartáveis e vilões momentâneos conforme a conveniência do mercado.

 

Ancelotti chega ao Brasil cercado pela aura de salvador estrangeiro, tratado como um filósofo renascentista desembarcando num país sem rumo. Mas o futebol brasileiro conhece bem esse roteiro. Sebastião Lazaroni também chegou como modernizador entre 1989 e 1990, embalado pela promessa da ciência tática e do futuro inevitável. O resultado terminou nas oitavas de final diante da Argentina de Maradona, enquanto a Alemanha Ocidental levantava a taça na Itália. O futebol adora repetir farsas com figurinos novos.

 

Porque o problema já não é mais Neymar. Neymar é apenas o sintoma mais visível.

 

Sua convocação confirma aquilo que muita gente prefere fingir não enxergar: o esporte moderno foi oficialmente transferido da categoria “competição” para a categoria “entretenimento”. O lobby pró-Neymar não é futebolístico. É financeiro. É publicitário. É transnacional. Não se discute apenas um atacante. Discute-se uma marca global ambulante, uma empresa humana cercada de patrocinadores, investidores e plataformas que lucram bilhões com sua existência.

 

E o detalhe mais revelador talvez tenha sido justamente o menos esportivo de todos: cerca de meia hora após a convocação, Neymar já aparecia nas redes sociais promovendo vídeos de patrocinadores como Mercado Livre, Red Bull e Puma. Tudo pronto. Tudo gravado. Tudo sincronizado. O futebol contemporâneo já não espera o apito inicial; ele vende a campanha antes mesmo da bola rolar.

 

Os romanos entenderiam perfeitamente.

 

O velho “pão e circo” jamais desapareceu. Apenas trocou o Coliseu pelas arenas multiuso, os gladiadores pelos atletas-celebridades e os pergaminhos pelos smartphones. A estratégia permanece assustadoramente idêntica desde Otávio Augusto e Juvenal: distrair as massas enquanto o poder reorganiza silenciosamente a estrutura da sociedade.

 

O Coliseu Romano não morreu. Apenas ganhou transmissão em 4K, patrocínio de casas de apostas e comentários em tempo real.


 

Quem viveu a Copa de 1970 conhece bem essa engrenagem. Naquela época eu estava com 18 anos de idade. Crédulo torcedor, havia no meu coração emoção legítima. Nas ruas, eu via lágrimas sinceras, abraços espontâneos, fogos, desfiles e o ufanismo quase religioso de um país que acreditava tocar o céu através de uma chuteira. O tricampeonato no México embriagou multidões. Mas a embriaguez coletiva não difere tanto assim da embriaguez alcoólica: ambas suspendem temporariamente a lucidez.

 

Enquanto Pelé levantava a Jules Rimet, o Brasil afundava nos porões do AI-5.

 

A ditadura militar compreendeu como poucos o poder narcótico do circo. O governo do general Emílio Garrastazu Médici transformou a conquista da Copa numa gigantesca campanha de propaganda institucional. “Pra Frente Brasil” não era apenas uma música; era um instrumento político de anestesia emocional coletiva. O país era convidado a cantar enquanto jornalistas eram censurados, opositores políticos perseguidos, presos torturados e vozes silenciadas.

 

A euforia servia como cortina sonora para esconder os gritos que vinham dos porões da ditadura.

 

A imprensa, em grande parte, ajoelhou-se diante do regime. E talvez essa seja uma das heranças mais persistentes daquele período: a transformação dos meios de comunicação em instrumentos permanentes de alienação esportiva, entretenimento político e fabricação de consensos emocionais.

 

Em 2026, o caso Neymar apenas atualiza a embalagem do mesmo produto histórico.

 

O Brasil vive mergulhado numa polarização infantilizada, onde torcidas políticas se comportam como claques organizadas enquanto a concentração de renda avança com brutalidade obscena. O povo trabalha mais, ganha menos, endivida-se mais rápido e aposta compulsivamente na falsa promessa de ascensão instantânea. E o futebol tornou-se parceiro perfeito dessa engrenagem.

 

As Bets financiam o espetáculo que financia os ídolos que alimentam as Bets.

 

Tudo gira em círculo.

 

Os salários do trabalhador mal sobrevivem ao mês, mas sustentam uma estrutura internacional trilionária que envolve jogadores, federações, patrocinadores, plataformas digitais e direitos de transmissão que ultrapassam qualquer capacidade humana de contagem. O torcedor já não é torcedor. É consumidor emocional. É dado estatístico. É tráfego monetizado.

 

E então surge a pergunta inevitável - talvez a mais perturbadora de todas:

 

E se o roteiro realmente terminar como o mercado deseja?

 

E se a Seleção de Carlo Ancelotti levantar a taça nos Estados Unidos, México e Canadá? E se Neymar voltar triunfante como herói redimido? E se o sistema conseguir produzir o final perfeito para o documentário, para os patrocinadores, para as plataformas de streaming, para os algoritmos e para a indústria da nostalgia?

 

O futebol moderno parece capaz até de transformar coincidências em campanhas publicitárias.

 

Pelé projetou o Santos e a Seleção para o planeta. Neymar, agora transformado em patrimônio financeiro global, pode terminar comprando o próprio Santos de Pelé. Ironia máxima dos tempos modernos: até a marca “Pelé” já pertence ao Mercado, ao lobby de Neymar.

 

No fim, talvez o futebol contemporâneo revele algo muito maior do que um simples esporte corrompido. Ele expõe a própria lógica do mundo atual: tudo pode ser transformado em produto, espetáculo, aposta, narrativa e lucro. Inclusive a paixão humana.

 

Talvez ainda exista beleza no futebol. Mas ela aparece cada vez menos nos gabinetes da CBF, nas campanhas publicitárias ou nos contratos milionários. Talvez sobreviva apenas nos campos de terra, nas arquibancadas humildes, no menino descalço chutando bola na rua sem saber quem patrocina a chuteira do seu ídolo.

 

Porque ali, longe do mercado, o futebol ainda resiste como jogo.

 

Todo o resto virou negócio.


 

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