O acaso, a palavra e o silêncio: A despedida de Júlio Bianco
- Editor BN

- há 2 dias
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Há pessoas que não passam - permanecem. Não no sentido ingênuo da imortalidade simbólica, tão repetida em obituários apressados, mas naquilo que deixam impregnado no modo como pensamos, escrevemos e até discordamos. Júlio César Bianco, o nosso “Pindobinha”, era desses.

Faleceu aos 72 anos, na noite de domingo, 3 de maio de 2026. Partiu de forma silenciosa, sem velório, como se escolhesse - ou aceitasse - a sobriedade final de quem sempre preferiu o conteúdo à cerimônia. Foi sepultado na manhã do dia seguinte, no Cemitério Municipal da Saudade, em Batatais. E, paradoxalmente, foi no silêncio que sua ausência fez mais barulho.
Filho de Juca Pindoba, herdou o apelido e, talvez, algo mais profundo: uma identidade que não se curva ao formalismo, mas o atravessa com ironia. Formado em Matemática pela Faculdade José Olympio, trilhou caminhos que, à primeira vista, parecem dissonantes - o rigor dos números e a fluidez da palavra. Funcionário do Banco do Brasil, encontrou, no entanto, na comunicação, o seu território mais fértil.
Foi no jornalismo local que Júlio se fez voz - e que voz. Por mais de duas décadas, assinou a coluna “Recado com endereço certo” no O Jornal de Batatais, espaço onde exercia aquilo que poucos dominam: a crítica com inteligência, a sátira com precisão, a frase com lâmina. Não escrevia para agradar; escrevia para provocar o pensamento. E, num tempo em que tantos falam para serem aceitos, ele escrevia para ser compreendido e, na maioria das vezes, fortemente contestado - o que é infinitamente mais difícil.
Sua trajetória passou também pela Rádio Difusora Batatais, Rádio e TV Educadora, pelo jornal A Tribuna de Batatais e pela Assessoria de Imprensa da Prefeitura. Acompanhou de perto o Poder Legislativo, não como mero observador, mas como alguém que entendia a política como fenômeno humano - com suas grandezas e suas inevitáveis contradições.
As manifestações após sua morte foram muitas. A Câmara Municipal e a Prefeitura registraram pesar. A equipe da Rádio e TV Educadora destacou sua relevância como comunicador e pensador crítico. Mas, para além das notas oficiais, houve algo mais verdadeiro: o eco nas redes sociais, nas memórias partilhadas, nas pequenas histórias que não entram nos registros formais, mas sustentam a dimensão humana de uma vida.

Eu e Júlio éramos da mesma geração. Ele de 1953, eu de 1952. Nos conhecemos ainda jovens, quando ele ingressou no Banco do Brasil. Anos depois, já maduros, voltamos a nos encontrar nas páginas de O Jornal de Batatais. Entre maio de 2014 e janeiro de 2017, dividimos aquele espaço semanal: eu com a coluna “Política & Algo Mais”; ele, com sua já tradicional trincheira de palavras afiadas e entrevistas daquelas feitas para serem lidas.
E havia ali, mais do que coexistência editorial, uma espécie de diálogo silencioso. Cada texto publicado carregava, ainda que indiretamente, uma resposta ao tempo - e, às vezes, um comentário ao outro. Não precisávamos concordar; bastava que houvesse densidade.
Sua partida, Júlio, me pareceu muito cedo - não em termos cronológicos, mas existenciais. Porque certas mentes não envelhecem: ampliam-se. E quando se ampliam, fazem falta de um modo que não se resolve com o tempo.
Vivemos, nos últimos anos, distantes. A vida, com sua habilidade quase irônica, separa aqueles que um dia compartilham proximidades intensas. Por isso, a notícia de sua morte chegou como chegam os imprevistos - ou, como você diria, os acasos.
E talvez seja justo encerrar esta despedida com a sua própria voz, que agora ressoa como síntese e enigma:
“Não há nada mais importante na vida das pessoas, no processo criativo dos artistas e no desenvolvimento das ciências, do que o acaso. No entanto o acaso não figura na lista de criação do Gênesis. Será que o AMIGÃO o criou por acaso? [...] Na verdade, cada caso, é um acaso.”
Você acusava o acaso. Nós, agora, acusamos a ausência.
Mas, no fundo, talvez sejam a mesma coisa.
Sua palavra ficou. E, para quem escreve, isso é tudo.
SEU COLEGA,
CARLOS ALBERTO MORAES






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