O curioso caso de quem discorda dos fatos
- Carlos Moraes

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Há algo de profundamente fascinante - e ao mesmo tempo perturbador - na capacidade humana de olhar para um fato histórico documentado e, com a serenidade de quem escolhe um sabor de sorvete, simplesmente descartá-lo como “piada”. Não se trata mais de desconhecimento. Trata-se de uma recusa deliberada da realidade.
Foi exatamente essa cena que motivou este editorial: ao se deparar com uma matéria sobre o “Dia do Trabalhador” - uma data cuja origem remonta a lutas operárias amplamente registradas e reconhecidas mundialmente - um político reagiu não com debate e argumentação, mas com desdém. Chamou de “piada” aquilo que está nos próprios anais da República. E, curiosamente, fez isso com a convicção de quem acredita estar defendendo a verdade.
É aqui que entramos no terreno movediço do negacionismo.
O negacionismo não é apenas discordar - o que seria saudável em qualquer sociedade democrática. Ele é algo mais sofisticado e mais perigoso: a substituição sistemática dos fatos por crenças e convicções pessoais. Quando a realidade entra em conflito com uma identidade política ou ideológica, não se ajusta a crença - ajusta-se a realidade. Ou melhor, fabrica-se outra.
Esse fenômeno cria o que se pode chamar de um verdadeiro “caos cognitivo”. Já não existe um terreno comum onde possamos discutir ideias, porque o próprio conceito de fato se dissolve na era da pós verdade. Tudo passa a ser opinável, inclusive aquilo que já foi comprovado, registrado e testado ao longo dos anos.
Nesse cenário, a coerência deixa de ser requisito. O importante é preservar o sistema de crenças pessoais, ainda que ele se sustente sobre contradições evidentes. A racionalidade cede lugar à racionalização - não se busca a verdade, mas justificativas para continuar acreditando no que é conveniente acreditar.
E como toda construção frágil precisa de sustentação artificial, entram em cena os “especialistas sob medida”, as teorias conspiratórias e a fabricação constante de dúvida. Não é necessário provar que algo é falso - basta insinuar que talvez não seja totalmente verdadeiro. E, assim, a dúvida se torna uma arma mais poderosa que a evidência.
O problema se agrava quando esse comportamento deixa de ser individual e passa a ser institucional. Quando autoridades questionam dados científicos, desacreditam fatos comprovados ou promovem soluções sem eficácia comprovada, a própria ideia de verdade pública se corrompe. O resultado é previsível: desorientação, polarização e, em casos extremos, tragédias coletivas.
O Brasil conheceu bem esse roteiro durante a pandemia. A negação da ciência não foi apenas um erro de julgamento - teve consequências mensuráveis em vidas perdidas. E ainda assim, há quem insista em reescrever essa história como se fosse apenas uma narrativa entre tantas outras possíveis. É preferível aceitar que a vacina pode transformar pessoas em jacarés do que acreditar que o vírus pode matar.
Mas o negacionismo não para na ciência. Ele avança sobre a história, sobre a política e, inevitavelmente, sobre a própria democracia. Ao minar a confiança nas instituições e no conhecimento acadêmico, abre espaço para soluções autoritárias - afinal, se nada é confiável, qualquer “verdade forte” passa a ser sedutora. Somos levados ao conceito do "Ministério da Verdade" em seu clássico romance distópico "1984", publicado em 1949. Um governo totalitário falsifica documentos históricos, altera estatísticas e reescreve notícias para garantir que o presente sempre pareça correto e de acordo com as vontades do partido.
Não por acaso, o mundo assiste ao crescimento de movimentos que flertam com o autoritarismo e resgatam sombras que a humanidade já deveria ter superado. A história, ironicamente, torna-se vítima justamente daqueles que se recusam a aprendê-la.
E aqui reside a maior ironia de todas: muitos dos que negam fatos históricos são beneficiários diretos deles. Direitos trabalhistas, por exemplo, não surgiram por geração espontânea. Foram conquistados em processos históricos complexos, com avanços marcantes durante governos como o de Getúlio Vargas e Luis Inácio Lula da Silva, entre outros. Negar isso não apaga a história - apenas revela um desconforto com ela.
Duvidar é saudável. Questionar é necessário. Mas negar sistematicamente aquilo que já foi comprovado não é ceticismo - é recusa.
No fim, o negacionismo não é sobre falta de informação. É sobre escolha. A escolha de viver em uma realidade paralela onde os fatos são opcionais e a verdade é maleável, como se não houvesse mais absolutos. Neste mundo paralelo o único absoluto é a relativização da verdade.
E talvez o mais inquietante seja isso: não estamos diante de um problema de conhecimento, mas de vontade. Afinal, para quem decidiu não acreditar, nenhuma evidência será suficiente.
A solução que predomina, de modo especial nas redes sociais e na comunicação em geral é radical: “Estou te bloqueando”. É a tática da lacração adotada, especialmente pelos extremistas de direita. Isso trava o debate e impede qualquer esclarecimento.






Comentários