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O "medo" da Regina e o "amor" do Zezé

  • Foto do escritor: Editor BN
    Editor BN
  • 18 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Há momentos na vida pública brasileira em que a política deixa de ser um campo de ideias para se tornar um palco de emoções mal digeridas. Não se debate projetos, mede-se sentimentos. Não se analisa a realidade, dramatiza-se o próprio umbigo.

 

REGINA DUARTE & ZEZÉ DI CAMARGO


Foi assim em 2002, quando Regina Duarte, então a eterna “namoradinha do Brasil”, emprestou sua voz trêmula a um dos mais emblemáticos vídeos da propaganda eleitoral negativa da história recente: “Eu tenho medo”. E parece ser assim agora, quando Zezé Di Camargo, já longe do auge, decide romper com uma emissora de televisão porque o presidente da República - o mesmo que ele apoiou e com quem faturou milhões - apareceu sorridente em uma foto institucional.

 

O fio que une Regina Duarte e Zezé Di Camargo não é apenas a fama, nem tampouco o trânsito confortável entre palcos e holofotes. O elo mais profundo está na conversão da política em espetáculo emocional, onde coerência ideológica é artigo de luxo e convicção se ajusta conforme o vento, o contrato ou o aplauso.

 

Em 2002, Regina Duarte declarou temer Lula como quem teme um fantasma. Disse não reconhecê-lo mais, acusou-o de ter mudado, insinuou riscos à estabilidade do país. O Brasil, segundo ela, estava à beira de um abismo emocional. O curioso é que Lula não era um estranho em sua trajetória: Regina já havia votado nele, já havia flertado com a esquerda, visitado Cuba, sido recebida por Fidel Castro, convivido com artistas engajados e causas progressistas. O medo, portanto, não era exatamente do desconhecido, mas daquilo que se decidiu não mais compreender.

 

Anos depois, a atriz migrou sem escalas para o bolsonarismo, passou pela Secretaria de Cultura como quem passa por um papel mal ensaiado e, mais recentemente, declarou que votará em quem Jair Bolsonaro indicar. Não importa quem. A política, nesse caso, deixa de ser reflexão e vira obediência emocional. A mesma Regina que apoiou o PSDB sem saber explicar o que era social-democracia, passou a tratar esquerda e direita como rótulos intercambiáveis, quase decorativos, úteis apenas para justificar afetos e desafetos.

 

Zezé Di Camargo percorreu caminho semelhante, embora embalado por acordes sertanejos e cifras mais robustas. Em 2002, apoiou Lula com entusiasmo. Cantou em comícios, produziu música de campanha, participou de mais de quinze eventos eleitorais petistas e recebeu, segundo registros da imprensa, pagamentos vultosos. O amor político, naquele momento, tinha artigo definido, cachê definido e palanque definido.

 

O tempo passou, o mercado mudou, o agro ganhou centralidade e Zezé descobriu um novo amor - desta vez, sem artigo, sem definição clara e sem lastro factual. Tornou-se bolsonarista convicto, passou a ver Bolsonaro como preso político e Lula como símbolo absoluto da corrupção, ignorando decisões judiciais, contextos históricos e nuances mínimas da realidade. Acusou o PT de financiar ditaduras estrangeiras, negou a existência da ditadura militar brasileira e comparou o governo Lula a regimes como Coreia do Norte e Cuba, numa salada ideológica digna de lives inflamadas e estudos rasos.

 

O episódio do SBT, neste mês de dezembro, é o retrato acabado dessa confusão. Ao pedir que seu especial de Natal “É Amor” fosse retirado do ar porque Lula, Alexandre de Moraes e outras autoridades participaram do lançamento do SBT News, Zezé revelou menos indignação moral e mais necessidade de holofote. Em nome de “honrar pai e mãe”, passou a julgar as filhas de Silvio Santos, como se divergência política fosse pecado filial. Em nome de “não decepcionar o povo brasileiro”, decidiu falar por um povo que nunca o investiu desse mandato.

 

Curiosamente, Zezé já havia declarado, em janeiro de 2023, não ser nem Bolsonaro nem Lula, nem de esquerda nem de direita, apenas “a favor do Brasil”. Mas a neutralidade, quando performática, costuma cair à primeira selfie presidencial. O gesto contra o SBT não o colocou acima da política; apenas o afundou ainda mais numa bolha de ressentimento e irrelevância progressiva.

 

E aqui surge a ironia fina - quase cruel - da linguagem. Zezé consagrou-se cantando “É o Amor”. Com artigo definido. Amor único, absoluto, particularizado, quase metafísico. O especial cancelado chamava-se “É Amor”. Sem artigo. Amor genérico, indefinido, abstrato, à deriva. A gramática, às vezes, diz mais que o discurso político. O “amor” sem artigo é como a trajetória recente do cantor: sem direção clara, sem definição ética, sem substância conceitual.

 

Regina Duarte viveu o medo; Zezé Di Camargo vive o amor indefinido. Ambos trocaram a reflexão pelo sentimento bruto, a análise pela reação, a política pela dramaturgia pessoal. O resultado é uma caricatura do engajamento público: artistas que confundem convicção com conveniência, ideologia com identidade emocional, e debate público com crise existencial transmitida em vídeo.

 

No fim, talvez a Bíblia ofereça a chave mais simples para compreender esse percurso. “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6.10). O problema nunca foi ter dinheiro, fama ou influência. O problema é quando esses elementos passam a definir o sentido da realidade, deformando valores, distorcendo a política e reduzindo o país a um cenário onde o ego sempre precisa ser o protagonista.

 

O tempo, implacável e silencioso, costuma revelar essências. Algumas carreiras terminam em aplauso. Outras, em silêncio constrangedor. Entre o "medo" de Regina e o "amor" (sem artigo) de Zezé, o Brasil segue, apesar deles - tentando, ao menos, manter a política no terreno das ideias, e não das crises emocionais de celebridades em fim de ato.


 

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