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Opinião pública ou opinião publicada?

  • Foto do escritor: Letícia Moraes
    Letícia Moraes
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Dizem por aí que a opinião pública é soberana. Uma entidade quase mística, invisível, mas poderosa - capaz de eleger, derrubar, consagrar ou cancelar. Bonito isso. Poético até. Pena que, na prática, a tal “opinião pública” muitas vezes não passa de um ventríloquo bem treinado… e nós, a plateia.

 

Existe uma diferença curiosa - e conveniente - entre a opinião que nasce nas ruas e a que aparece nas manchetes. A primeira é imperfeita, barulhenta, contraditória. Vem da conversa no café, do bate papo nos bares, da dona de casa indignada, do jovem confuso tentando entender o mundo. Já a segunda… ah, a segunda vem polida, editada, recortada e, quando necessário, convenientemente distorcida.

 

Chamam isso de “opinião publicada”. Um nome elegante para algo que, muitas vezes, foi cuidadosamente moldado antes de chegar até você. Não é exatamente mentira - seria mais honesto assim. É uma seleção criteriosa da verdade… com filtro, maquiagem e, às vezes, um bom patrocinador por trás.

 

Enquanto isso, a verdadeira opinião pública segue seu caminho, ignorada ou reduzida a uma nota de rodapé. Quando coincide com o discurso dominante, vira “a voz do povo”. Quando diverge, passa a ser “desinformação”, “radicalismo” ou qualquer rótulo conveniente do momento.

 

Curioso como certos consensos surgem do nada. De repente, todos “pensam igual”. Todos “concordam”. Todos “sabem” o que é certo. E quem ousa discordar descobre rapidamente que não está debatendo ideias - está enfrentando um roteiro já escrito.

 

Não é teoria conspiratória. É método. Interesses existem - políticos, econômicos, ideológicos - e seria ingênuo acreditar que eles assistem passivamente à formação da opinião coletiva. Não assistem. Participam. Influenciam. Direcionam. Às vezes, comandam.

 

E assim seguimos, acreditando que estamos formando nossas opiniões livremente, enquanto muitas delas já chegaram prontas, embaladas e com prazo de validade.

 

Mas há um detalhe incômodo para quem controla narrativas: a realidade tem o péssimo hábito de escapar. A vida concreta, o dia a dia das pessoas, as dificuldades reais - tudo isso não cabe perfeitamente nos editoriais planejados. E é aí que a verdadeira opinião pública resiste. Silenciosa, mas viva.

 

Ela não precisa de manchetes para existir. Não depende de curtidas, nem de algoritmos. Ela se forma na experiência, no confronto com os fatos, na percepção de que nem tudo que é dito corresponde ao que é vivido.

 

No fim das contas, talvez a maior ironia seja esta: enquanto muitos tentam fabricar a opinião pública, é a própria realidade que, teimosamente, insiste em desmenti-los.

 

E quem presta atenção - de verdade - começa a perceber a diferença entre a opinião pública e a opinião publicada.

 

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Letícia F. Moraes

Fisioterapeuta e Terapeuta

 

 

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