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Quando você finalmente descobre quem é

  • Batatais News
  • há 12 minutos
  • 8 min de leitura

Há momentos na vida em que tudo parece estar no lugar. A família está bem, os relacionamentos parecem sólidos, os projetos seguem seu curso e a rotina, embora nem sempre emocionante, oferece aquela sensação confortável de que sabemos para onde estamos indo.


 

Até que, um dia, alguma coisa acontece.

 

Às vezes é uma perda. Às vezes, uma decepção. Pode ser uma doença, uma mudança inesperada, o fim de um relacionamento ou simplesmente aquele momento estranho em que a pessoa percebe que está vivendo uma vida que já não consegue compreender.

 

E então vem a pergunta que ninguém gosta de fazer: Quem sou eu, afinal?

 

É curioso como podemos passar décadas conhecendo pessoas, lugares, profissões, hábitos e histórias e, ainda assim, permanecermos quase desconhecidos para nós mesmos.

 

De repente, você descobre que, mesmo naqueles momentos em que tudo parecia bem, havia problemas ocultos. Descobre que alguns dos melhores relacionamentos de sua vida carregavam conflitos que você não percebia. Descobre que havia dentro de você sentimentos que nunca havia nomeado, medos que nunca havia enfrentado e desejos que preferia manter escondidos.

 

Então acontece algo ainda mais surpreendente: você larga algumas coisas, muda de direção e decide experimentar uma nova jornada. Não sabe exatamente para onde está indo. É quase como embarcar numa viagem imaginária em busca de alguma coisa que você não sabe definir.

 

E, no caminho, acaba encontrando alguém que não esperava encontrar: você mesmo.

 

Talvez seja essa uma das experiências mais desconcertantes da existência humana.

 

Quando a vida fecha para balanço

 

Na infância, normalmente não fazemos grandes perguntas sobre identidade. Somos filhos de alguém, netos de alguém, irmãos, primos, alunos. Crescemos cercados de referências.

 

A vida segue.

 

Estudamos. Trabalhamos. Fazemos amigos. Construímos relacionamentos. Alguns se casam. Criamos filhos. Assumimos responsabilidades. Pagamos contas. Fazemos planos.

 

E quase sem perceber, construímos uma espécie de personagem social.

Somos aquilo que fazemos. Somos o cargo que ocupamos. Somos o sobrenome que carregamos. Somos conhecidos pelos outros de determinada maneira.

 

Até que alguma coisa quebra essa arquitetura. Uma pessoa importante morre. E, quando alguém que durante anos funcionou como uma espécie de referência desaparece, parece que uma parte do nosso próprio mapa desaparece junto.

 

A morte tem essa capacidade desconcertante de reorganizar as prioridades. Ela nos obriga a olhar para aquilo que normalmente evitamos. É como se a vida colocasse uma placa na porta: “Fechado para balanço.” E o balanço pode demorar.

 

Porque não se trata apenas de descobrir o que perdemos. Trata-se de descobrir quem éramos quando aquela pessoa ainda estava conosco e quem seremos agora que ela não está mais aqui.

 

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard escreveu que “ousar é perder o equilíbrio momentaneamente; não ousar é perder-se a si mesmo”. A frase ajuda a compreender determinados momentos da existência. Há ocasiões em que continuar exatamente como está pode ser mais perigoso do que mudar.

 

A crise, portanto, nem sempre é o fim de alguma coisa. Às vezes, é o começo da descoberta.

 

Blaise Pascal percebeu, séculos atrás, algo semelhante ao observar a inquietação do coração humano. O homem tenta preencher o vazio com distrações, conquistas e ocupações, mas continua carregando dentro de si uma inquietação que nenhuma dessas coisas consegue resolver definitivamente.

 

Talvez seja porque fomos feitos para algo maior do que aquilo que conseguimos construir.

 

O problema está mais fundo do que imaginamos

 

A Bíblia não é otimista a respeito da natureza humana. E isso, paradoxalmente, é uma das razões pelas quais sua mensagem é tão esperançosa.

 

Jeremias escreveu: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9).

 

A pergunta é perturbadora: Quem conhece verdadeiramente o coração humano?

Nós mesmos?

Nem sempre.

 

Há pessoas que passam a vida inteira acreditando conhecer o próprio coração e só descobrem sua verdadeira condição quando enfrentam uma situação extrema.

É justamente por isso que o versículo seguinte é tão importante: “Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos...” (Jeremias 17.10). Deus conhece aquilo que nós não conhecemos. Ele enxerga o que escondemos dos outros e, muitas vezes, de nós mesmos.

 

Em Hebreus lemos que a Palavra de Deus é viva e eficaz e que ela é capaz de discernir “os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4.12). Isso significa que a Bíblia não apenas nos informa sobre Deus. Ela também nos revela a nós mesmos.

 

Quando abrimos as Escrituras, muitas vezes esperamos encontrar respostas para os problemas da vida. E encontramos. Mas, antes disso, encontramos algo que pode ser ainda mais desconfortável: a verdade sobre nós.

 

A Palavra de Deus funciona como um espelho. E espelhos são honestos e, por isso, nem sempre são agradáveis.

 

O filho que descobriu quem era

 

Poucas histórias bíblicas ilustram melhor essa descoberta do que a parábola do filho pródigo, em Lucas 15. O rapaz sai de casa querendo descobrir a vida.

 

Talvez pensasse que a casa do pai representava limites demais. Talvez imaginasse que a verdadeira liberdade estivesse distante dali.

 

Pede sua parte da herança e parte.

 

A princípio, tudo parece funcionar. Há dinheiro. Há experiências novas. Há liberdade. Há uma vida sem as antigas regras.

 

Até que o dinheiro termina. Os amigos desaparecem. A fome chega.

 

E o rapaz termina cuidando de porcos, desejando comer aquilo que eles comiam.

 

É nesse ponto que acontece algo extraordinário: “E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!” (Lucas 15.17).

 

Tornando em si”. Talvez essa seja uma das expressões mais importantes da parábola.

 

Ele finalmente volta para si. Descobre quem é. Descobre que estava perdido. Descobre que sua suposta liberdade havia produzido escravidão. Descobre que havia abandonado uma casa que, na verdade, nunca deixou de ser sua casa.

 

E então começa a voltar.

 

Mas há uma surpresa ainda maior. Ele imagina que será tratado como empregado.

 

O pai, porém, não o recebe como empregado. Recebe-o como filho. Manda trazer a melhor roupa. Coloca um anel em sua mão. Calça-lhe os pés. Prepara uma festa.

 

O rapaz estava preocupado com sua desqualificação. O pai estava pensando em restauração.

 

Essa é uma das grandes diferenças entre a maneira como o homem olha para si mesmo e a maneira como Deus olha para aquele que se arrepende.

 

A mulher que não conseguia esconder sua história

 

Em João 4, encontramos outra pessoa diante de uma descoberta semelhante. A mulher samaritana chega ao poço para buscar água. Mas encontra Jesus.

 

Ela provavelmente conhecia sua própria história muito bem. Sabia dos relacionamentos fracassados, sabia da situação em que vivia e, provavelmente, sabia também o que os outros pensavam dela.

 

Jesus, porém, sabia mais.

 

Ele conhecia sua história sem precisar que ela a contasse. E não a humilhou.

Não precisou gritar suas falhas diante da multidão. Não a esmagou com condenação.

 

Jesus levou aquela mulher a olhar para a própria realidade e, ao mesmo tempo, ofereceu-lhe algo que nenhum relacionamento humano poderia oferecer: água viva.

 

Ela havia ido ao poço buscar água. Saiu de lá levando uma nova esperança.

 

Aquela mulher, que talvez tivesse aprendido a viver escondida, correu para a cidade e começou a falar sobre Jesus.

 

É impressionante. A pessoa que talvez tivesse motivos para evitar as pessoas tornou-se mensageira para as pessoas.

 

Quando Cristo entra na história de alguém, o passado deixa de ser apenas um arquivo de fracassos e pode tornar-se parte do testemunho da graça.

 

Zaqueu e a surpresa de ser visto

 

Algo semelhante acontece com Zaqueu.

 

Lucas 19 conta que ele era chefe dos publicanos e rico. Não era exatamente alguém admirado pela população.

 

Quando Jesus passa por Jericó, Zaqueu sobe numa árvore para vê-lo. Talvez pensasse que estava apenas observando Jesus. Mas descobre que Jesus também o estava vendo. E Jesus diz: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.” (Lucas 19.5).

 

Que surpresa! Jesus não apenas o identifica pelo nome. Jesus entra em sua casa.

 

E a presença de Cristo produz uma transformação.

 

Zaqueu decide reparar seus erros. O encontro com Jesus alcança seu bolso, suas relações e seu passado.

 

Porque a verdadeira conversão não é apenas uma mudança de opinião religiosa. É uma mudança de direção. É uma nova maneira de viver.

 

A grande surpresa do Evangelho

 

Talvez seja aqui que a história humana encontre seu ponto mais extraordinário.

 

Nós passamos boa parte da vida tentando descobrir quem somos. A Bíblia, entretanto, começa em outro lugar. Ela nos diz quem Deus é.

 

E, quando descobrimos quem Deus é, começamos a compreender quem somos.

 

Somos pecadores. Mas não somos apenas pecadores. Somos pecadores que Deus decidiu amar.

 

Efésios 2 apresenta essa verdade de maneira extraordinária. Paulo começa falando de pessoas “mortas em ofensas e pecados” (Efésios 2.1). Não apresenta o homem como alguém espiritualmente doente precisando apenas de tratamento. Apresenta-o como alguém morto.

 

Mas então aparecem duas das palavras mais belas do Evangelho: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou...” (Efésios 2.4).

 

Mas Deus.” É aí que tudo muda.

 

O homem estava morto. Mas Deus.

 

O homem estava perdido. Mas Deus.

 

O homem não tinha condições de salvar a si mesmo. Mas Deus.

 

Estávamos mortos em pecados, mas Deus nos vivificou juntamente com Cristo. A salvação não começa na capacidade do homem de reconstruir a própria vida.

Começa na graça de Deus.

 

Talvez você não precise de uma vida nova. Talvez precise de uma nova vida.

 

Existe uma diferença enorme entre reformar a vida e receber vida. Podemos mudar de emprego, cidade, relacionamento, aparência, hábitos e rotina. Podemos viajar para o outro lado do mundo e continuar carregando o mesmo coração. Podemos trocar de endereço sem trocar de direção.

 

Podemos começar uma nova fase sem experimentar um novo nascimento.

 

Jesus não veio apenas melhorar pessoas. Veio salvar pecadores. Essa é a essência do Evangelho. A cruz não foi uma demonstração de que somos bons o suficiente para Deus. Foi a demonstração de que Deus nos amou quando não éramos bons o suficiente para nós mesmos.

 

Cristo morreu pelos pecadores. E é justamente aí que o Evangelho se torna tão surpreendente. Não precisamos primeiro consertar tudo para depois nos aproximarmos de Deus. Precisamos nos aproximar de Deus para que Ele comece a transformar aquilo que jamais conseguiríamos transformar sozinhos.

 

A viagem mais importante

 

Talvez você esteja vivendo uma fase em que tudo parece embaralhado. Talvez alguma perda tenha retirado o chão que sustentava sua segurança. Talvez você tenha descoberto problemas que durante muito tempo estavam escondidos. Talvez tenha chegado o momento em que sua vida parece estar “fechada para balanço”.

 

Não tenha tanta pressa de fugir desse momento. Há coisas que só conseguimos enxergar quando o barulho diminui.

 

A crise pode revelar fragilidades. A perda pode revelar prioridades. O silêncio pode revelar perguntas. E a Palavra de Deus pode revelar o coração.

 

Mas existe algo ainda maior. Deus pode revelar Cristo. E quando Cristo é encontrado, a viagem deixa de ser apenas uma busca por identidade.

Passa a ser uma jornada de redenção.

 

Agostinho de Hipona escreveu, nas famosas palavras de suas Confissões, que o coração humano permanece inquieto até encontrar descanso em Deus. Talvez seja exatamente isso que tantos procuram sem saber.

 

Procuramos nos relacionamentos. No trabalho. No dinheiro. Nas viagens. Nos projetos. Nas conquistas. Na aprovação dos outros.

 

E, depois de conseguir algumas dessas coisas, descobrimos que ainda existe dentro de nós uma pergunta que permanece sem resposta.

 

Quem sou eu?

 

O Evangelho responde: Você é alguém criado por Deus. Alguém que caiu em pecado. Alguém que não consegue salvar a si mesmo.

 

Mas, pela graça, pode ser reconciliado com Deus por meio de Jesus Cristo.

 

Essa é a verdadeira descoberta. Não é simplesmente descobrir quem somos. É descobrir de quem somos.

 

E talvez seja essa a maior viagem que uma pessoa possa fazer. Uma viagem para dentro de si, onde encontra sua própria fragilidade. Uma viagem para as Escrituras, onde encontra a verdade.

 

E, finalmente, uma viagem até a cruz, onde encontra Aquele que, mesmo conhecendo completamente sua história, ainda assim decidiu amá-la.

 

Porque o maior milagre não é descobrir que você não era exatamente quem imaginava. O maior milagre é descobrir que, mesmo conhecendo quem você realmente é, Deus ainda o chama para voltar para casa.

 

E, quando o filho volta, o Pai não pergunta apenas onde ele esteve. O Pai abre os braços. A festa começa. E a vida, que parecia precisar apenas de uma reforma, finalmente pode receber aquilo de que realmente precisava: redenção.


 

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