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QUEM CONTROLA O CAPITAL CONTROLA AS NAÇÕES?

Batatais News
há 11 horas
8 min de leitura

A concentração de dinheiro, tecnologia, infraestrutura e informação está criando uma nova relação de poder entre corporações globais e governos.


 

Há uma pergunta que talvez o século XXI ainda não tenha respondido adequadamente: quem realmente governa quando aqueles que governam dependem cada vez mais daqueles que controlam o capital, a tecnologia e as infraestruturas indispensáveis à sociedade?

 

A pergunta não é uma teoria conspiratória. Também não significa que os Estados nacionais tenham deixado de existir ou que empresas privadas tenham adquirido soberania. Significa algo mais concreto e, talvez por isso mesmo, mais inquietante: determinadas corporações alcançaram uma dimensão econômica, tecnológica e financeira capaz de influenciar decisões que antes pertenciam quase exclusivamente aos governos.

 

O fenômeno pode ser observado nos números.

 

As 500 maiores empresas do mundo, reunidas pela Fortune Global 500, movimentaram US$ 43,1 trilhões em receitas em 2025, empregaram 70,2 milhões de pessoas e produziram US$ 3,39 trilhões em lucros. O conjunto dessas empresas representa mais de um terço do PIB mundial quando se compara sua receita com a produção econômica global - comparação que exige cautela metodológica, pois receita empresarial e PIB não são a mesma coisa.

 

Mas justamente aí está o ponto: não é necessário dizer que uma empresa “vale mais que um país” para perceber que algumas empresas passaram a exercer formas de poder que ultrapassam suas fronteiras nacionais.

 

O CAPITAL SE CONCENTROU

 

O capitalismo moderno já não é caracterizado apenas pela existência de grandes empresas. Ele é também caracterizado pela crescente concentração da propriedade e da administração do capital.

 

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OECD - investidores institucionais já detêm 47% de todo o patrimônio acionário das companhias abertas abrangidas por seu levantamento global. E, em 44% das empresas listadas no mundo, os três maiores acionistas, somados, possuem mais de 50% das ações.

 

Isso significa que uma parcela extraordinariamente grande da economia mundial está ligada a estruturas de propriedade concentrada.

 

E aqui aparece uma distinção essencial. Quem administra o capital nem sempre é seu proprietário.

 

A Black-Rock, por exemplo, entrou em 2026 com aproximadamente US$ 14 trilhões em ativos sob gestão. Esse dinheiro não pertence à Black-Rock. Pertence aos seus clientes. A empresa administra esses recursos em nome deles.

 

Entretanto, administrar capital não é a mesma coisa que possuir capital - e tampouco é a mesma coisa que ser irrelevante.

 

A Black-Rock informa que sua área de investimento responsável participou de milhares de reuniões com empresas e votou em dezenas de milhares de propostas de acionistas. Ao mesmo tempo, seu programa Voting Choice permite que determinados clientes participem diretamente das decisões de voto. Em junho de 2026, US$ 923 bilhões em ativos de clientes já estavam efetivamente utilizando essa possibilidade.

 

A questão, portanto, não é simplesmente perguntar: “De quem é o dinheiro?”

É preciso perguntar também: “Quem administra o dinheiro?” E depois: “Quem decide como esse capital vota?”

 

São perguntas diferentes - e todas têm consequências econômicas e políticas.

 

O PODER QUE NÃO APARECE NOS BALANÇOS

 

Existe, porém, uma transformação ainda mais profunda. O poder econômico contemporâneo não está apenas no dinheiro. Está também no controle de infraestruturas das quais o dinheiro, a informação e a própria administração pública dependem.

 

Considere-se a computação em nuvem.

 

Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud concentram aproximadamente dois terços do mercado mundial de infraestrutura de nuvem empresarial, segundo levantamentos recentes do setor.

 

Não estamos falando simplesmente de três empresas que vendem serviços de informática. Estamos falando da infraestrutura onde funcionam sistemas empresariais, bancos de dados, aplicações, inteligência artificial e uma parte crescente das operações digitais de empresas e governos.

 

O computador do cidadão pode estar em sua casa. Mas a economia digital que sustenta sua vida pode estar funcionando em servidores pertencentes a empresas privadas situadas a milhares de quilômetros de distância.

 

É uma forma diferente de poder.

 

QUEM CONTROLA OS CHIPS?

 


A inteligência artificial tornou essa questão ainda mais evidente. O Banco Mundial, em seu World Development Report 2026, afirma que as camadas da cadeia de valor da inteligência artificial - desde hardware e infraestrutura até modelos e aplicações - estão concentradas em poucos países e, frequentemente, em apenas algumas empresas.

 

O relatório é particularmente significativo porque não se trata de uma publicação de uma empresa de tecnologia ou de um grupo ideológico. O Banco Mundial identifica expressamente que essa concentração cria riscos de dependência para os países.

 

A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, a TSMC, é um exemplo extraordinário. Em 2025, a companhia obteve US$ 122,4 bilhões em receita e US$ 55,2 bilhões de lucro líquido. Tecnologias de 7 nanômetros ou mais avançadas representaram 74% de sua receita de wafers, enquanto a produção em volume de chips de 2 nanômetros começou no quarto trimestre daquele ano.

 

Não é apenas uma empresa grande. É uma empresa localizada em um ponto estratégico de uma cadeia tecnológica da qual dependem fabricantes de processadores, sistemas de inteligência artificial, smartphones, computadores e equipamentos avançados.

 

Outro exemplo é a holandesa ASML. Em 2025, a empresa registrou €32,7 bilhões em vendas, €9,6 bilhões de lucro líquido e vendeu 48 sistemas de litografia EUV.

 

A ASML não controla governos. Mas controla uma tecnologia crítica para a fabricação dos chips mais avançados.

 

É aqui que a velha definição de poder começa a ficar insuficiente.

 

PODER NÃO É APENAS TER.

É PODER NEGAR.

 

Durante séculos, poder significava principalmente possuir. Possuir terra. Possuir ouro. Possuir fábricas. Possuir petróleo. Possuir navios.

 

Hoje, existe outra forma de poder: controlar aquilo sem o qual os outros não conseguem funcionar.

 

Quem controla uma infraestrutura essencial pode não possuir todo o patrimônio que passa por ela, mas pode controlar o acesso a essa infraestrutura. É o que acontece, em diferentes graus, com: plataformas de computação; redes de pagamentos; sistemas operacionais; mecanismos de busca; redes sociais; semicondutores; equipamentos para fabricação de chips; data centers; sistemas de inteligência artificial; grandes plataformas de comércio.

 

Essa é uma espécie de poder de passagem. Não significa necessariamente mandar. Significa possuir capacidade de permitir, dificultar, condicionar ou encarecer o acesso.

 

ATÉ O DINHEIRO PRECISA DE INFRAESTRUTURA

 

O sistema financeiro oferece outro exemplo. A Visa informou que processou, em 2025, US$ 17 trilhões em pagamentos e volume de dinheiro, com aproximadamente cinco bilhões de credenciais de pagamento e 329 bilhões de transações Visa.

 

Novamente, seria errado dizer que a Visa “possui” US$ 17 trilhões. Não possui. Mas a dimensão revela a importância de sua infraestrutura. O dinheiro pode pertencer ao cidadão. A conta pode pertencer ao banco. A mercadoria pode pertencer ao comerciante.

 

Mas uma parte da operação pode depender de uma rede privada para que a transação aconteça. E isso nos conduz a uma pergunta desconfortável: quanto poder existe em controlar a estrada por onde o dinheiro passa?

 

E OS GOVERNOS?

 

É justamente aqui que precisamos evitar uma conclusão precipitada.

 

Os governos continuam possuindo poderes que nenhuma empresa possui. O Estado pode legislar. Pode tributar. Pode regulamentar. Pode julgar. Pode aplicar sanções. Pode controlar fronteiras. Pode emitir moeda, quando dispõe de soberania monetária. Pode contratar. Pode proibir determinadas atividades.

Pode impor multas. E, em circunstâncias extremas, pode nacionalizar determinados ativos.

 

Portanto, as corporações não substituíram os Estados. Mas existe outra questão.

 

Os Estados também passaram a depender das corporações. Governos utilizam serviços de nuvem. Dependem de fornecedores de tecnologia. Utilizam redes privadas de pagamentos. Compram semicondutores produzidos em cadeias globais. Dependem de sistemas de telecomunicações. Contratam plataformas digitais. Utilizam inteligência artificial. E precisam disputar investimentos privados para construir determinadas infraestruturas.

 

O próprio Banco Mundial alerta que a concentração da cadeia de inteligência artificial pode produzir assimetrias de poder entre países, governos e corporações. O relatório de 2026 afirma que o controle de modelos avançados, chips e data centers por poucas empresas cria riscos de dependência.

 

Essa é provavelmente a questão central.

 

O ESTADO AINDA MANDA.

MAS PODE PRECISAR NEGOCIAR

 

A soberania estatal continua existindo. O que pode estar mudando é a relação de poder dentro da qual essa soberania é exercida.

 

Um governo pode determinar regras para uma empresa. Mas, se essa empresa controla uma infraestrutura indispensável, o governo precisa considerar o custo econômico de confrontá-la.

Uma empresa pode não possuir soberania. Mas pode possuir algo diferente: poder de barganha. E quanto maior a dependência de determinada infraestrutura, maior pode ser esse poder de barganha.

 

Não é necessário imaginar uma reunião secreta de bilionários decidindo o destino das nações. A realidade é muito mais banal.

 

Contratos. Investimentos. Servidores. Patentes. Chips. Data centers. Redes. Fundos. Ações. Conselhos de administração. Lobby. Regulação. Impostos. Subsídios.

 

E negociações permanentes entre governos e grandes corporações. O poder pode estar justamente nessa rede.

 

QUEM GOVERNA QUEM?

 

Talvez, portanto, a pergunta do nosso tempo não seja: “As empresas ficaram maiores que os Estados?” A pergunta mais precisa é: “Até onde pode chegar a autonomia de um Estado quando setores estratégicos de sua economia dependem de estruturas privadas concentradas?”

 

A pergunta vale para o Brasil. Vale para a Europa. Vale para os Estados Unidos. Vale para países africanos. Vale para a América Latina. E vale especialmente para os países que não produzem os chips, não controlam os grandes modelos de inteligência artificial, não possuem grandes plataformas digitais e precisam importar praticamente toda essa infraestrutura.

 

O problema não é simplesmente econômico. É também político.

 

Porque dependência econômica pode produzir dependência estratégica. E dependência estratégica pode reduzir a margem de escolha de um governo.

 

NÃO É O FIM DOS ESTADOS.

É O FIM DA ILUSÃO DE AUTONOMIA ABSOLUTA

 

Talvez seja exagerado afirmar que as nações serão governadas pelas grandes corporações. Mas também seria ingênuo imaginar que governos podem tomar qualquer decisão econômica sem considerar os interesses e a capacidade de reação dos grandes centros privados de capital.

 

A realidade está entre os dois extremos.

 

O Estado continua sendo soberano. O capital privado, porém, tornou-se transnacional. O Estado possui território. O capital pode atravessar fronteiras em segundos. O Estado possui leis. O capital pode mudar de jurisdição. O Estado pode tributar. O capital pode reorganizar investimentos. O Estado possui instituições. O capital possui redes globais.

 

E quando o capital se concentra em poucas mãos, a capacidade de influência também pode se concentrar.

É por isso que a questão não deveria ser tratada como uma guerra entre “Estado” e “Mercado”. O verdadeiro desafio é descobrir quem controla os pontos estratégicos por onde passam o dinheiro, a informação, a tecnologia e a produção.

 

A PERGUNTA QUE FICA

 

No século XX, discutia-se quem controlava as fábricas. No século XXI, talvez seja necessário perguntar quem controla as plataformas, os chips, os dados, os fundos, as redes e as infraestruturas sem as quais as fábricas sequer conseguem funcionar.

 

Quem possui a terra tem poder. Quem possui a fábrica tem poder. Quem possui o dinheiro tem poder. Mas quem controla a infraestrutura necessária para que todos os demais funcionem pode possuir uma forma ainda mais sofisticada de poder.

 

Não necessariamente o poder de governar. Mas o poder de condicionar quem governa. E talvez seja justamente aí que esteja a grande questão política e econômica deste século: se o voto continua pertencendo ao cidadão, mas o capital, a tecnologia e a infraestrutura se concentram progressivamente em poucas organizações, até onde pode ir a soberania de quem recebeu o voto?

 

A resposta ainda está sendo construída.

 

Mas uma coisa já pode ser afirmada: o poder mundial não está desaparecendo das mãos dos Estados para simplesmente cair nas mãos das empresas. Ele está se reorganizando em uma complexa rede na qual governos, corporações, investidores institucionais e infraestruturas estratégicas se tornaram mutuamente dependentes.

 

E, nesse novo mundo, talvez a pergunta mais importante não seja mais apenas quem governa.

 

Talvez seja: quem controla aquilo de que quem governa depende?


 

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