"Ruffini Giuseppe": Batatais na Primeira Guerra Mundial
- Editor BN

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Batatais nos Campos de Batalha da Primeira Guerra Mundial: a trajetória de José Rufino, o combatente que atravessou o Atlântico para lutar na Itália.

Quando se fala na participação de Batatais em conflitos armados, a memória coletiva costuma recordar os combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932 ou os pracinhas que integraram a Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Poucos sabem, porém, que décadas antes desses acontecimentos um filho de Batatais já havia cruzado o Oceano Atlântico para combater em uma das maiores tragédias da história da humanidade: a Primeira Guerra Mundial.
Seu nome era José Rufino de Oliveira, conhecido posteriormente pelos batataenses como “Zé da Guerra”. Sua história, preservada por familiares e por documentos que sobreviveram ao tempo, revela uma trajetória singular que liga o interior paulista aos sangrentos campos de batalha da Itália.
A GUERRA QUE MUDOU O MUNDO
Deflagrada em 1914, a Primeira Guerra Mundial transformou profundamente o cenário político internacional. O conflito envolveu as principais potências da época e mobilizou milhões de soldados em uma guerra de dimensões nunca antes vistas.
O estopim ocorreu em 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, foi assassinado em Sarajevo. A partir daquele episódio, alianças militares arrastaram diversas nações para o conflito.
A guerra opôs inicialmente a Tríplice Entente - formada por França, Reino Unido e Rússia - às Potências Centrais, lideradas por Alemanha e Áustria-Hungria. Embora inicialmente integrante da Tríplice Aliança, a Itália abandonou seus antigos aliados em 1915 e passou a lutar ao lado da Entente, abrindo uma importante frente de combate nos Alpes e no norte italiano.
Os números impressionam ainda hoje. Historiadores estimam que mais de 65 milhões de soldados tenham sido mobilizados durante a guerra e que cerca de 10 milhões de militares tenham morrido em combate, além de milhões de vítimas civis.
O BRASIL ENTRA NA GUERRA
O Brasil permaneceu neutro durante os primeiros anos do conflito. A situação mudou em 1917, quando submarinos alemães passaram a atacar embarcações brasileiras que navegavam pelo Atlântico.

Após o afundamento de navios mercantes nacionais, o governo do presidente Venceslau Brás rompeu relações diplomáticas com a Alemanha e declarou estado de guerra em outubro daquele ano.

Embora a participação brasileira tenha sido relativamente modesta em comparação às grandes potências, o país enviou navios para patrulhamento do Atlântico, missões médicas à Europa, aviadores militares e apoio logístico aos Aliados, tornando-se o único país latino-americano a declarar guerra formalmente ao Império Alemão.
UM JOVEM BATATAENSE PARTE PARA A EUROPA
É nesse contexto que surge a figura de José Rufino.

Nascido em Batatais em 1892, filho de Joaquim Rufino de Oliveira e Etelvina Cesária de Jesus, José era conhecido por seu espírito aventureiro. Relatos familiares indicam que ainda jovem viajou por diversos países da América do Sul, experiência pouco comum para um homem do interior paulista naquela época.
Em 1914, trabalhava em um estabelecimento comercial situado na área onde posteriormente seria construída a residência da tradicional família Scatena. Com a eclosão da guerra, tomou uma decisão que mudaria definitivamente sua vida.

Influenciado por amigos ligados à comunidade italiana, decidiu integrar um grupo de voluntários que se dirigia à Europa para lutar ao lado da Itália.
A viagem durou aproximadamente 45 dias de navio. Ao chegar ao continente europeu, José encontrou um obstáculo inesperado: como cidadão brasileiro, não poderia ser incorporado imediatamente às forças italianas.
Segundo a tradição familiar, a solução veio por meio da comprovação de sua ascendência italiana. Dessa forma, passou a utilizar a forma italianizada de seu nome, sendo registrado como Ruffini Giuseppe, identidade sob a qual teria servido nas forças militares italianas.
NAS TRINCHEIRAS DO FRONT ITALIANO
O front italiano foi um dos mais difíceis de toda a guerra.

As batalhas travadas ao longo do rio Isonzo, da região do Carso e posteriormente em Caporetto e Vittorio Veneto ficaram marcadas pela extrema violência, pelas condições climáticas rigorosas e pelas elevadas perdas humanas.
Os soldados passavam meses em trincheiras escavadas entre montanhas, expostos ao frio, à fome, às doenças e ao constante fogo inimigo.
De acordo com os relatos transmitidos por familiares, Ruffini Giuseppe integrou unidades de assalto responsáveis por avançar contra posições inimigas e abrir caminho para o restante das tropas.
Durante os combates sofreu graves ferimentos. Um projétil atravessou parte de seu corpo e diversos estilhaços atingiram sua cabeça e região abdominal. Apesar das sequelas permanentes, conseguiu sobreviver e recebeu reconhecimento de seus superiores pelos serviços prestados.
O RETORNO A BATATAIS
Com o fim da guerra, José iniciou sua viagem de volta ao Brasil.
Seu passaporte registra uma licença emitida em Gênova em 3 de dezembro de 1919, documento que confirma sua permanência na Itália após o encerramento dos combates.
Ao chegar a Batatais, foi recebido como herói.
Na Estação da Companhia Mogiana, familiares, amigos e autoridades organizaram uma recepção festiva. As tradicionais bandas Euterpe Batataense e Santa Cecília executaram dobrados e marchas em sua homenagem.
A celebração prosseguiu na sede da Sociedade Italiana de Batatais, então localizada na Rua Coronel Joaquim Alves.
Ali, diante dos presentes, José agradeceu as homenagens em italiano, gesto que emocionou a comunidade e reforçou os vínculos culturais que mantinha com suas origens familiares.
O "ZÉ DA GUERRA"
Terminados os dias de combate, José voltou à vida simples que sempre conheceu.
Instalado no bairro do Castelo, passou a ser conhecido por todos como “Zé da Guerra”, apelido que atravessaria gerações.
Casou-se com Maria Augusta Guina e constituiu uma numerosa família. Teve seis filhos: Isabel, Etelvina, Yolanda, Ivo, Irvana Aparecida e José Joaquim de Oliveira Rufino, conhecido como “Gerrinha”.
Mesmo carregando pelo resto da vida as marcas físicas deixadas pelos ferimentos de guerra, dedicou-se ao trabalho e à família, tornando-se figura conhecida entre os moradores da cidade.
José Rufino faleceu em 16 de setembro de 1962, aos 69 anos, sendo sepultado no Cemitério da Saudade, em Batatais.
UM HERÓI QUASE ESQUECIDO
Mais de um século após o fim da Primeira Guerra Mundial, a trajetória de José Rufino permanece como um dos episódios mais singulares da história batataense.
Em reconhecimento à sua memória, a Câmara Municipal aprovou, em 3 de março de 2015, projeto de autoria da vereadora Andressa Furini denominando uma via pública do Jardim Celeste como Rua José Rufino.
Seu nome permanece gravado não apenas em uma placa de rua, mas também na memória daqueles que preservam sua história.
Enquanto milhões de homens combatiam em uma guerra que redesenharia o século XX, um jovem nascido em Batatais decidiu atravessar o oceano e integrar aquele conflito distante. Sua trajetória demonstra que os grandes acontecimentos da história mundial também podem ser contados a partir das histórias de homens comuns que nasceram em pequenas cidades do interior.
José Rufino foi um deles. E sua história continua a lembrar que Batatais também esteve presente nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.
O DESAFIO DA PESQUISA HISTÓRICA
Reconstruir a trajetória militar de José Rufino não é tarefa simples.
Ao contrário dos soldados brasileiros incorporados oficialmente às forças nacionais, os voluntários estrangeiros frequentemente aparecem apenas em arquivos militares dos países em que serviram.
Esse fato explica a dificuldade de localizar registros brasileiros sobre sua participação na guerra.
Uma das linhas de pesquisa mais promissoras para futuras investigações encontra-se justamente nos arquivos militares italianos, onde possivelmente podem existir documentos relacionados ao soldado registrado como Ruffini Giuseppe. Também podem existir registros em listas de alistamento, condecorações, hospitais militares ou unidades de combate italianas da época.
MATÉRIA DOS JORNALISTAS
LUIS CLARET FERREIRA
CARLOS ALBERTO MORAES






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