A banalização da morte como método político
- Editor BN

- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Há acontecimentos que deveriam impor silêncio, ou ao menos contenção, a qualquer líder público. A morte violenta de um cidadão - sobretudo quando envolve um casal assassinado dentro de sua própria casa - é um deles. Não se trata de protocolo, mas de um princípio civilizatório elementar: diante da tragédia irreversível, suspende-se o conflito político. Quando esse princípio é violado, o problema deixa de ser retórico e passa a ser moral.
A reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao assassinato do cineasta Rob Reiner e de sua esposa, Michele Singer-Reiner, constitui uma dessas violações. Ao usar a morte de um crítico político para atacá-lo postumamente, atribuindo a tragédia a uma suposta obsessão ideológica e recorrendo a linguagem desumanizante, Trump ultrapassou um limite que deveria ser intransponível na vida pública.
Como seres humanos, temos que considerar esse comportamento inaceitável.
Não houve, por parte do presidente, qualquer manifestação de pesar, solidariedade ou reconhecimento da gravidade do ocorrido. Em seu lugar, houve escárnio, acusação e instrumentalização política de um homicídio ainda sob investigação. A morte não foi tratada como tragédia humana, mas como pretexto discursivo.
Essa postura não pode ser relativizada como mero excesso verbal, provocação ou estilo pessoal. Quando um chefe de Estado reage dessa forma a um assassinato, ele envia uma mensagem inequívoca à sociedade: a dignidade humana é condicionada; o luto é opcional; a empatia é seletiva. Trata-se de uma mensagem corrosiva para qualquer ordem democrática.
A autoridade política não se sustenta apenas no voto ou no poder institucional, mas também em padrões mínimos de conduta moral. A recusa deliberada em reconhecer a dor alheia - sobretudo quando associada à morte violenta - compromete essa autoridade. Ao negar humanidade a um adversário mesmo após sua morte, o presidente normaliza a ideia de que há pessoas que não merecem respeito nem no luto.
O uso da linguagem é central nesse processo. Palavras não são neutras. Quando um líder escolhe descrever um morto como mentalmente doente, indigno ou responsável pelo próprio destino trágico, ele não apenas ofende a memória da vítima, mas legitima uma lógica de desumanização. Essa lógica não permanece confinada ao discurso; ela molda comportamentos, percepções e limites sociais.
Entendemos que não cabe especular sobre diagnósticos psicológicos, colocando em perspectiva uma possível psicopatia do presidente. O que importa são os atos públicos e seus efeitos. E o efeito desse episódio é claro: a banalização da morte como instrumento político. Quando a morte deixa de ser um ponto de inflexão moral e passa a ser apenas mais um elemento na disputa ideológica, algo fundamental se rompe no tecido da vida pública.
A história é pródiga em demonstrar que a erosão das normas simbólicas precede a degradação das instituições. A desumanização começa na linguagem, avança na indiferença e termina na violência normalizada. Nenhuma democracia é imune a esse processo quando seus líderes se recusam a reconhecer limites éticos básicos.
O assassinato de Rob Reiner não exige concordância com suas posições políticas. Exige apenas o reconhecimento de sua condição humana. Ao falhar nesse ponto elementar, Donald Trump não apenas desonrou a função que ocupa, mas contribuiu para o empobrecimento moral do debate público.
Quando a morte já não impõe respeito, o problema não está apenas em quem fala, mas no que a sociedade começa a tolerar. Esse é um alerta que não pode ser ignorado.
NOTA:
Esse editorial tem como pano de fundo o duplo assassinato do cineasta Rob Reiner e de sua esposa, Michele Singer Reiner, em sua casa em Los Angeles, que abalou Hollywood e a cena política estadunidense na segunda-feira (15), devido às declarações do presidente Donald Trump.





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