A extrema direita como vanguarda do globalismo que diz combater
- Editor BN

- há 16 minutos
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Nos últimos anos, consolidou-se no debate público uma narrativa segundo a qual o globalismo - entendido como a articulação de elites econômicas, organismos multilaterais e interesses transnacionais - seria um projeto essencialmente “de esquerda”. Essa leitura, no entanto, não resiste a uma análise mais cuidadosa dos fatos. Ao contrário do discurso que propaga, a extrema direita mundial tem atuado como um dos principais vetores práticos da globalização contemporânea, ainda que se apresente como sua antagonista retórica. A contradição não é acidental. Ela é estrutural.
A retórica anti-globalista como instrumento político
Movimentos classificados como extrema direita ou populismo de direita constroem sua identidade a partir da oposição a um inimigo difuso: o “globalismo”. Nesse pacote simbólico entram a ONU, a OMS, a União Europeia, agendas ambientais, políticas migratórias e pautas identitárias. O discurso é o da defesa da soberania nacional, dos valores tradicionais e do Estado-nação.
Contudo, essa oposição é majoritariamente discursiva, não operacional. Trata-se de uma estratégia de mobilização emocional do eleitorado, baseada no medo da perda de identidade cultural e no ressentimento social, e não de um projeto real de desglobalização.
A internacional da extrema direita existe - e é organizada
Enquanto acusa a esquerda de globalista, a extrema direita opera por meio de redes transnacionais altamente integradas. Isso é documentado por investigações jornalísticas e acadêmicas.
Relatórios do The Guardian, Der Spiegel e do New York Times demonstraram, por exemplo, a atuação internacional de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, na tentativa de articular uma “internacional nacionalista”, conectando partidos e lideranças da extrema direita na Europa, América Latina e Estados Unidos.
O uso coordenado de plataformas digitais, campanhas de desinformação, financiamento cruzado e consultorias políticas internacionais - como revelado no escândalo Cambridge Analytica durante o Brexit e a eleição de 2016 nos EUA - evidencia que esses movimentos pensam e agem globalmente, ainda que vendam um discurso antiglobal.
Big Tech, capital transnacional e a nova direita
Outro dado pouco debatido é o alinhamento estratégico entre a extrema direita e setores do capitalismo digital global. As grandes plataformas - Meta, X (ex-Twitter), Google e outras - funcionam como infraestruturas globais de disseminação política, frequentemente favorecendo narrativas extremistas por meio de algoritmos de engajamento.
A atuação política direta ou indireta de bilionários do setor tecnológico, com interesses transnacionais claros, desmonta o mito de que esses movimentos estariam enfrentando as elites globais. Na prática, há convergência entre ultraconservadorismo político e liberalismo econômico radical.
O neoliberalismo autoritário como eixo real do projeto
Governos e lideranças de extrema direita, quando chegam ao poder, raramente rompem com a lógica econômica global. Pelo contrário: promovem privatizações, desregulação ambiental, flexibilização trabalhista e abertura irrestrita ao capital estrangeiro.
Esse modelo, amplamente documentado por organismos como a OCDE e por estudos de economia política, é definido por analistas como neoliberalismo autoritário: um Estado forte para reprimir, fraco para regular o mercado. Culturalmente reacionário, economicamente globalista.
Assim, enquanto atacam o “globalismo político” - instâncias multilaterais e pactos internacionais de governança - aprofundam o globalismo econômico, subordinando países periféricos às dinâmicas do capital financeiro internacional.
A inversão da culpa como estratégia
Ao atribuir à esquerda o papel de “carro-chefe do globalismo”, a extrema direita pratica uma inversão retórica eficaz: oculta sua própria integração ao sistema global, desloca o debate do campo econômico para o cultural e constrói um inimigo interno conveniente.
Essa estratégia não visa desmontar o globalismo, mas reorganizar quem manda dentro dele.
Conclusão
A análise dos fatos mostra que a extrema direita contemporânea não combate o globalismo; ela o reformula em seu próprio benefício, mantendo a lógica econômica transnacional intacta enquanto oferece ao eleitorado uma narrativa identitária, nacionalista e moralizante.
O globalismo que realmente molda o mundo não está sendo enfrentado - está sendo administrado por novos atores, com novas bandeiras, mas com velhas alianças econômicas.
E, ironicamente, tudo isso acontece sob o grito de guerra contra um inimigo que serve mais como espantalho do que como alvo real.





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