A vida de Gilberto Santos do IAMB
- jornaldeapoioedito
- 3 de fev. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de fev. de 2025
Uma explicação necessária
Dia 05 de julho de 2024 aconteceu a inauguração do Espaço Cultural do Legislativo de Batatais. A primeira exposição foi um memorial ao IAMB - Instituto Agrícola de Menores de Batatais. Na ocasião conheci duas pessoas que fizeram parte da história do IAMB: Sonia Maria Berbare Albuquerque Parente, uma das filhas do senhor Hernani, e que é da curadoria do acervo exposto e Jorge Veiga, artista plástico que estava expondo no mesmo espaço, pois suas obras rememoram a história do IAMB aonde ele viveu como interno.
Pouco tempo depois, publicamos aqui no Batatais News, um resumo histórico da vida desse nobre artista. No embalo dessa publicação, através da Sônia Parente, soubemos da vida de outros internos, entre eles, Gilberto Santos. Por isso, aqui estamos, publicando em partes um pouco da vida desse cidadão vitorioso, fruto do inesquecível trabalho do IAMB.
No final desta matéria colocamos links das matérias aqui citadas.
A vida de Gilberto Santos
Primeira Parte: Uma jornada imprevisível
Nascido em 13 de outubro de 1954, na cidade de Itabaianinha, Sergipe, Gilberto Santos foi recebido com alegria por seus pais, Augusto Santos e Maria Raimunda Pereira Santos, e pelos irmãos mais velhos, José Nilton e Maria José, que logo não estariam mais em casa. No meio da simplicidade e das dificuldades, a infância de Gilberto era marcada por brincadeiras criativas e por desafios que moldariam sua história.

OS PAIS: AUGUSTO SANTOS E MARIA RAIMUNDA PEREIRA SANTOS
Ao lado do irmão Nivaldo, os dois improvisavam brincadeiras genuínas e criativas em meio à pobreza. Contudo, esses momentos lúdicos sempre eram interrompidos pela dura realidade da vida familiar. A fome marcava presença constante e, diante da escassez, Maria Raimunda tentava confortar os filhos com uma frase que se tornou rotina: “Filho, vai brincar que a fome passa”. O pai, ausente e entregue ao alcoolismo, quando voltava para casa trazia consigo a violência, quebrando o pouco do que tinham em vasa e espalhando medo.
Cansada do sofrimento, Maria Raimunda tomou a decisão de fugir.
A MATÉRIA CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO

Aproveitando uma das ausências do marido, reuniu os filhos e partiu para Itapetinga, na Bahia. A esperança de uma vida melhor, no entanto, encontrou novos desafios. Sem trabalho e sem apoio, a fome continuava a rondar a família. Foi nessa fase que Gilberto, ainda menino, assumiu a responsabilidade de buscar comida para os irmãos, batendo de porta em porta, enfrentando recusas, mas sempre persistindo, conseguia algo para matar a fome dele e dos irmãos.
A paisagem de Itapetinga ficou gravada em sua memória. Mesmo depois de muito tempo, ele sempre se lembrava do rio que cortava a cidade, a imponente fábrica do Leite Glória e a Praça dos Bois. Mas, de novo, as dificuldades persistiam, e Maria Raimunda tomou uma decisão extrema. Deixou a pequena Miini com uma família e, com os outros três filhos – Gilberto, Nivaldo e o bebê Hélio – embarcou em um caminhão “pau de arara” rumo a São Paulo, juntamente com outras famílias que tomavam o mesmo destino.

GILBERTO EM 1970 E 2024
A viagem foi longa e marcada por acontecimentos inesquecíveis. Entre esses acontecimentos, dois deles foram bem graves e causaram transtornos e atrasos. Um homem picado por cobra, em uma das paradas para descanso, e o atropelamento de uma mulher que caminhava à beira da estrada, atrasou a jornada por vários dias.
Enfim, apesar de todas as dificuldades e surpresas, chegaram ao destino. A primeira noite em São Paulo dormiram em um albergue. No dia seguinte, saíram bem cedo e caminharam até à Estação da Luz. Ali, a mãe pediu para eles se acomodassem em um canto e saiu dizendo que voltaria logo e que não saíssem dali. Passou a manhã, veio a tarde, e com ela a fome. A mãe não voltava e Gilberto deixou os dois irmão esperando e saiu em busca de alimento. Conseguiu trazer lanches doados por alguém e voltou. O tempo voava e logo chegou a noite e a mãe não aparecia. Na verdade, ela nunca mais voltaria.
Entregues à própria sorte, os três irmãos enfrentavam o frio e a fome, até que, um dia, de-repente, uma Kombi parou diante deles. Pessoas desceram e os recolheram, levando-os a um orfanato administrado por freiras na Avenida Celso Garcia. Ali, Gilberto e Nivaldo permaneceram juntos, mas Hélio, ainda bebê, foi separado e nunca mais tiveram notícias dele.
No orfanato, a fome e o abandono deram lugar a roupas limpas e momentos de lazer que a muito tempo não tinham. A vida seguia com muitas dores e feridas que iam cicatrizando, enquanto marcas recentes e novos desafios se apresentavam. O consolo era que, pelo menos, havia algum conforto, comida, banho quente e uma cama para dormir.
Depois de algum tempo, veio uma ordem para transferência de orfanato que os levou para Birigui, a 450 km da capital. Poucas são as recordações que ficaram daquele lugar, pois ali ficaram por um curto período. O Gilberto mais gostava era das idas ao cinema nos finais de semana.

GILBERTO NO EXÉRCITO E OS 2 PRIMEIROS FILHOS: ANDRÉ E DANIEL
Não demorou muito até serem levados de volta para São Paulo, para outro orfanato. Essa sequências de mudanças causava incertezas, Mas Gilberto continuava acreditando que apesar das dificuldades e das incertezas e imprevisibilidades, ainda haveria alguma mudança que lhe daria perspectiva de futuro.
Gilberto e Nivaldo não sabiam, mas em breve aconteceria mais uma mudança, e essa seria a chave que abriria, definitivamente, a porta do futuro.
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Em breve publicaremos um novo texto relatando a chegada de Gilberto e seu irmão em Batatais para fazerem parte da Família IAMBI.
MATÉRIAS CITADAS
Uma noite recheada de memórias e emoções
Jorge Veiga: Resiliência no viver e dedicação às artes plásticas
https://www.batataisnews.com.br/post/jorge-veiga-resiliencia-no-viver-e-dedicacao-as-artes-plasticas





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