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Com licença, posso elogiar o Lula?

  • Foto do escritor: Editor BN
    Editor BN
  • 8 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

O silêncio que fala alto: a intolerância política em Batatais e região.

 

Um clima inusitado e, por que não dizer, revelador tomou conta de uma recente reunião em Batatais, quando, em meio a justos reconhecimentos pelo retorno da agência do INSS à cidade, uma cena expôs, de forma simbólica, a alma política da região de Ribeirão Preto. Ao mencionar o papel do governo Lula na concretização do feito, um dos presentes, filiado a um partido de esquerda, mas aliado político da direita, precisou quase pedir licença para expressar um elogio singelo ao presidente - e foi prontamente recompensado com olhares de reprovação e sorrisos silenciosos irônicos.

 

A cena, embora breve, e imperveptiível para os menos atentos, diz muito. Ela expõe a face de um ambiente político regional onde o diálogo com o diferente é visto como provocação, e o reconhecimento de mérito a governos de esquerda soa como heresia. Trata-se de uma postura que, infelizmente, ainda predomina em grande parte do interior paulista, especialmente em redutos historicamente identificados com a direita mais conservadora e, em tempos recentes, com a extrema direita.

 

A região de Ribeirão Preto tem longa tradição de pensamento político enraizado em valores tradicionais, empresariais e agraristas, que se traduzem em resistência quase automática a tudo que venha de governos de orientação progressista. O reacionarismo local - que já foi mais forte no passado e parecia dar sinais de mudança - hoje se reconfigura com roupagem moderna, mas com o mesmo DNA de intolerância. É o que se poderia chamar de “neocoronelismo de opinião”: um ambiente em que apenas uma narrativa é admitida, e qualquer dissonância precisa ser justificada, explicada, ou pior, abafada.

 

Não se trata de defender partidos, mas de defender a honestidade intelectual no debate público. Quando um cidadão é constrangido por reconhecer uma ação governamental que beneficia sua própria cidade - ainda que vinda de um governo com o qual não se identifique - é sinal de que a política deixou de ser instrumento de construção coletiva e virou campo de guerra cultural permanente.

 

Enquanto nas esferas nacionais já se ensaia um diálogo mais maduro entre forças políticas, em Ribeirão Preto e arredores ainda impera o sectarismo que confunde adversário com inimigo. A consequência disso é o empobrecimento do debate e a estagnação das políticas locais, reféns de bolhas ideológicas onde se aplaude apenas quem pensa igual.

 

O episódio presenciado em Batatais, mais do que um constrangimento momentâneo, é um sintoma. Ele revela o quanto nossa cultura política ainda carece de pluralidade, de tolerância e de senso democrático. Quando reconhecer um avanço de governo - seja de direita ou de esquerda - passa a exigir coragem, estamos diante de um problema que vai muito além das disputas partidárias: trata-se de uma crise de civilidade política.

 

A política não avança quando se cala o outro, mas quando se escuta. E o que se viu aqui em Batatais é o retrato de uma região que precisa, urgentemente, reaprender a escutar - sob pena de seguir presa a um passado de muros ideológicos e portas fechadas ao diálogo.

 

Em um país que precisa reconstruir pontes, é lamentável que ainda existam redutos onde o simples ato de reconhecer o mérito do oposto seja tratado como ato de rebeldia. Que o episódio sirva, ao menos, como espelho: a democracia só é plena quando a diferença pode ser dita sem medo, e o aplauso não tem lado - tem justiça.

 

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