Dia do Professor em 2025: não há muito o que comemorar, mas urgem escolhas
- Editor BN

- 15 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Neste 15 de outubro, o Brasil celebra o Dia do Professor - uma data que, simbolicamente, deveria encher o país de gratidão, homenagens e reconhecimento real. Mas, em 2025, diante da crise estrutural que assola a educação, especialmente em nosso estado, cabe mais uma interrogação do que uma festa: O que, de fato, há para comemorar?

A desestruturação da educação: cenário de escombros
A profissão docente no Brasil vive um momento delicado - não apenas por dificuldades pontuais, mas por falhas estruturais enraizadas.
1. A carreira docente em fuga
Há cada vez menos pessoas querendo ser professor. Segundo estudos, menos de 10% dos estudantes de 15 anos aspiram à carreira docente - um índice muito inferior ao de futuros engenheiros ou médicos. 01
Além disso, entre 2010 e 2021, a procura por cursos de licenciatura caiu cerca de 26%, reflexo direto da percepção de que ser professor não vale a pena. 02
Se essa tendência seguir, teremos um apagão de professores - alerta já feito por pesquisadores e pelas entidades sindicais. 03
Estimativas sugerem que, até 2040, o Brasil poderá enfrentar um déficit de até 235 mil professores na educação básica. 04
Esse desinteresse é o espelho da desvalorização: quem quer dedicar sua vida a uma carreira com tantas dificuldades e tão poucas perspectivas reais?
2. Condições de trabalho que destroem o espírito docente
Mesmo aqueles que continuam na sala de aula enfrentam ambientes adversos:
Salas superlotadas, falta de materiais didáticos e tecnológicos, infraestrutura precária. 05
Violência física ou verbal: mais da metade dos professores afirmam já ter sido vítimas de algum tipo de violência no exercício da função. 06
Carga de trabalho excessiva: além de dar aulas, muitos docentes acumulam correção, planejamento, reuniões, e ainda práticas institucionais que não são reconhecidas. 07
Desrespeito institucional: contratos precários, ausência de estabilidade, insegurança profissional. De acordo com dados recentes da OCDE/Talis, apenas 64% dos professores no Brasil têm contrato permanente - abaixo da média dos países da OCDE (81%). 08
Baixos salários: embora em 2025 o piso nacional tenha sido reajustado para R$ 4.867,77 (6,27% acima da inflação), muitos estados e municípios ainda não ajustaram seus próprios pisos ou lidam com recursos escassos. 09
Nas escolas particulares, a realidade é ainda mais dura: em algumas regiões, professores recebem salários inferiores ao que já é considerado “mínimo” para redes públicas. 10
A combinação desses fatores gera desgaste físico, emocional e intelectual. Não é de surpreender que 79,4% dos professores já tenham pensado em desistir da carreira. 11

3. Desigualdade, infraestruturas e ideologias: A tempestade sobre a escola
A crise da educação não é apenas uma crise de professores, mas de sistema:
O financiamento da escola pública é insuficiente, irregular e muitas vezes mal direcionado.
A disparidade entre redes municipais, estaduais e privadas é enorme - o que faz com que a “educação de baixa qualidade” seja quase uma marca para as camadas mais vulneráveis.
Ideologias, filtros políticos e disputas simbólicas têm invadido o espaço escolar, minando a autonomia pedagógica de professores e alimentando conflitos nas comunidades escolares.
A pandemia escancarou fragilidades já antigas: retrocessos nos índices de aprendizagem, abandono escolar, desigualdades ampliadas. 12
Em outras palavras: não há “rede de proteção” consistente para a educação no Brasil. Cada professor e cada escola lidam com suas mazelas quase isoladamente. É um modelo que fere a equidade, o direito à educação de qualidade e a dignidade docente.
No Dia do Professor, não basta “agradecer” - É hora de exigir
Sim, ainda existe o gesto simbólico: flores, discursos, homenagens. E há, sem dúvida, muitos professores motivados por vocação, paixão e missão. Mas simbolismo vazio corre o risco de virar insulto se não for acompanhado por transformações reais. Então, no dia 15 de outubro, cabe perguntar:
Quantos professores efetivos poderão ser contratados para substituir aposentados ou faltantes?
Quantos municípios e estados efetivamente pagarão o piso nacional ou acima dele?
Quantos ambientes escolares terão infraestrutura, segurança e recursos para que o professor possa ensinar - e o aluno possa aprender?
Que políticas de estímulo real existem para que jovens escolham a carreira docente, permaneçam nela e se desenvolvam?
Sem respostas concretas, a celebração é farsa.

Como valorizar verdadeiramente o professor - Sugestões urgentes
Para que o Brasil possa, de fato, renovar seus quadros, oferecer educação digna e cumprir seu dever constitucional, algumas medidas são imprescindíveis:
Plano nacional de carreira docente - que garanta progressão salarial, tempo para formação, estabilidade e condições de trabalho dignas.
Financiamento adequado e contínuo - não apenas aumentar recursos em anos eleitorais, mas garantir orçamento consistente e desvinculado de contingências.
Infraestrutura escolar de qualidade - escolas com equipamentos, laboratórios, acervos, tecnologia, segurança e ambientes de convivência.
Formação inicial e continuada com estrutura - cursos de licenciatura valorizados, apoio à pós-graduação, formação prática supervisionada, residências pedagógicas.
Incentivos para atuação em áreas remotas ou carentes - bolsas, bonificações, auxílio-moradia, melhores condições de trabalho - sem que isso signifique “castigo” para o professor.
Valorização social e reconhecimento institucional - campanhas públicas consistentes, respeito à autonomia pedagógica, combate à violência institucional e cultura de desrespeito.
Participação docente nas decisões - garantir que os professores tenham voz nas políticas educacionais nas escolas, nos sistemas de ensino e nas instâncias de poder.
Mais do que homenagens - Compromisso com o presente e o futuro
Se o Brasil quiser evitar que a educação se torne um campo abandonado, em que poucos resistem até o esgotamento, será necessário fazer mais do que “dia de” homenagens. Será necessário compromisso político, investimento real, mudança de mentalidade.
Neste 15 de outubro, devemos lembrar que professor é sujeito humano, não um herói sobrenatural. E que, para que novos professores entrem e permaneçam, é preciso construir condições reais. Sem isso, estaremos apenas celebrando o vazio - enquanto o esvaziamento da educação segue seu curso silencioso.
Se quiser, posso preparar para você uma versão curta para jornal ou revista, ou até um artigo opinativo adaptado para redes sociais. Quer que eu monte isso?
REFERÊNCIAS:
02 UNINTER
04 Jornal USP+1
08 Poder360
10 e 11 Agência Brasil
12 CNN Brasil





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