"Lacre, Like, Lucro": A economia moral da indignação em liquidação
- Carlos Moraes

- há 5 dias
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Há um novo tripé sustentando a praça pública contemporânea. Não é mais a velha tríade republicana, tampouco os pilares clássicos da democracia deliberativa. O que temos agora é mais eficiente, mais ágil - e, convenhamos, mais rentável: “lacre, like e lucro”.
A política, que já foi arena de ideias (ainda que imperfeita), transformou-se em palco de performance. Não se argumenta, se encena. Não se debate, se viraliza. E, sobretudo, não se convence - se converte. Em cliques, em seguidores, em faturamento.
O historiador João Cezar de Castro Rocha tem sido uma das vozes mais lúcidas - e incômodas - a diagnosticar esse fenômeno. Ao analisar o discurso político contemporâneo, especialmente no campo da extrema-direita, ele identifica na tríade “lacre-like-lucro” não apenas uma estratégia de comunicação, mas um verdadeiro modelo de negócio. Um sistema em que a indignação é matéria-prima, o algoritmo é intermediário e o dinheiro é o produto final.
E como toda boa engrenagem capitalista, ela não desperdiça recursos. O “lacre” - essa forma hiperbólica de posicionamento moral ou ideológico - não precisa ser coerente, apenas barulhento. O “like” não exige reflexão, apenas reação. E o “lucro”, ah, esse dispensa explicações: ele chega como consequência inevitável de um público devidamente capturado pela emoção.
Nesse ecossistema, figuras como Pablo Marçal emergem não como exceções, mas como sínteses quase didáticas do processo. Sua atuação - frequentemente apontada por analistas como exemplar desse modelo - revela uma lógica em que a polêmica não é um efeito colateral, mas o próprio produto. A controvérsia não prejudica; ela impulsiona. Afinal, cada crítica indignada é também um engajamento contabilizado.
O mais curioso - ou talvez o mais irônico - é que essa dinâmica se alimenta de uma retórica que, em tese, condena exatamente aquilo que pratica. Fala-se em autenticidade, em ruptura com o sistema, em coragem para dizer “verdades”. Mas o que se vê, na prática, é uma sofisticada adaptação às regras mais previsíveis do mercado digital: atenção gera valor, e valor gera receita.
É aqui que entra a chamada “guerra cultural” - expressão tão repetida que já perdeu parte de sua força semântica, mas não sua utilidade estratégica. Sob seu guarda-chuva, qualquer tema pode ser convertido em combustível para engajamento: costumes, religião, educação, comportamento. Tudo é matéria-prima para a fabricação de conflito.
Os críticos desse fenômeno apontam que estamos diante de uma espécie de teatralização da política. Questões complexas são reduzidas a slogans inflamados, não para serem resolvidas, mas para serem exploradas. O debate público deixa de ser um espaço de construção coletiva e passa a ser um campo de batalha simbólico, onde o objetivo não é compreender o outro, mas derrotá-lo - preferencialmente em tempo real e com boa iluminação.
Nas análises sobre redes sociais, esse comportamento ganha contornos ainda mais sofisticados. Diferencia-se, por exemplo, quem de fato se engaja com causas sociais - ainda que de forma intensa - daqueles que utilizam o discurso como instrumento performático. Surge então uma distinção incômoda: o “lacre” como expressão legítima de posicionamento versus o “lacre” como estratégia de mercado. Neste último caso, o discurso deixa de ser fim e passa a ser meio - um recurso retórico para provocar o chamado “engajamento de ódio”, altamente eficaz e, paradoxalmente, lucrativo.
E assim seguimos, navegando em um ambiente onde a indignação é monetizada e a polarização é um ativo financeiro. A política, que deveria ser o espaço do possível, transforma-se em vitrine do exagero. O cidadão vira audiência. O argumento vira conteúdo. E a verdade - essa peça cada vez mais dispensável - torna-se apenas mais um detalhe na edição final.
Talvez o mais desconcertante seja perceber que esse modelo não precisa de adesão consciente para funcionar. Basta participação. Cada curtida, cada compartilhamento, cada comentário indignado alimenta a engrenagem que se pretende criticar.
No fim das contas, a tríade “lacre-like-lucro” não é apenas uma estratégia de alguns. É um sintoma de uma época em que a visibilidade vale mais que a veracidade, e em que a política descobriu, com certo atraso, aquilo que o mercado já sabia há muito tempo: nada vende mais do que a emoção - especialmente quando ela vem temperada com um pouco de caos.
E assim, entre um escândalo e outro, seguimos consumindo a indignação como quem rola o feed: distraídos, engajados e, sobretudo, rentáveis.
Carlos Alberto Moraes
Jornalista e Pastor Batista






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