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Nacime Mansur: Memória viva de Batatais

  • Batatais News
  • há 4 dias
  • 7 min de leitura

Cronista, comerciante e apaixonado por sua cidade, Nacime Mansur transformou personagens, histórias e causos do cotidiano em um dos mais valiosos legados culturais do município de Batatais.

Há pessoas que passam pela história. Outras tornam-se a própria memória de um povo. Em Batatais, esse lugar pertence a Nacime Mansur. Comerciante por profissão, cronista por vocação e apaixonado por sua terra, ele transformou as conversas de balcão, os seresteiros das madrugadas, os tipos populares e os acontecimentos do cotidiano em páginas que preservaram a alma da cidade.

 

Tive o privilégio de conviver com ele, ouvi-lo em longas conversas e registrar seus relatos em documentários que hoje se tornaram documentos históricos.

 

Nesta matéria, o leitor encontrará não apenas a biografia de um escritor, mas o retrato de um homem cuja vida se confundiu com a própria história de Batatais e cujo legado permanece vivo na literatura, na cultura e na memória afetiva de gerações.

 

Há homens que não apenas vivem em uma cidade, mas transformam suas esquinas, conversas e personagens em eternidade. Assim foi Nacime Mansur (1927-2015). Comerciante por ofício e escritor por paixão, ele dedicou a vida a registrar a essência de Batatais. Seu trabalho transformou causos de balcão e noites de seresta em patrimônio literário regional.


 

Uma Infância de Sonhos e Desafios

 

A caminhada de Nacime Mansur começou a se desenhar em Batatais, no dia 4 de outubro de 1927. Primeiro filho homem do casal Salomão Elias Mansur e Dib Salum Dalul, ele cresceu sob o teto de um lar moldado pelo afeto e pelos valores tradicionais. Desde muito jovem, Nacime aprendeu a equilibrar o peso do trabalho com o desejo de aprender, dividindo suas horas entre os afazeres práticos e os estudos, que complementou na vizinha Ribeirão Preto.

 

Contudo, o destino testou sua força cedo demais. Com a perda precoce de seu pai, aos 18 anos de idade, o jovem Nacime viu-se diante de uma missão nobre e desafiadora: assumir a direção da família. Tornando-se a principal referência para sua mãe e para seus irmãos mais novos, ele liderou com coragem a subsistência do lar e a educação de seus familiares, contando sempre com o apoio acolhedor dos parentes mais próximos. Foi nessa escola da vida, forjada na responsabilidade e no amor familiar, que brotou sua sensibilidade para olhar o mundo.

 

O Escritório na Loja e o "Roberto Marinho de Batatais"

 

Como amigo próximo que fui, guardo na memória com infinito carinho as inúmeras visitas que fiz a Nacime em seu escritório, nos fundos de sua tradicional loja. A cena era quase sempre a mesma, imutável no tempo e rica em afeto: sempre que eu entrava por aquela porta, ele me recebia com um sorriso largo e generoso nos lábios.


 ILUSTRAÇÃO COM LUIS CLARET E NACIME MANSUR


Enquanto enrolava calmamente o seu inseparável cigarro de palha, ele olhava para mim e disparava, bem ao seu estilo bem-humorado: "Bom dia, Roberto Marinho de Batatais! Quais são as principais notícias de Batatais para esta semana?"

 

Essa acolhida calorosa mostrava o homem que, mesmo imerso na rotina do comércio, respirava comunicação, amizade e a pulsação diária da nossa terra. O balcão e o escritório não eram apenas espaços de negócios, mas sim um observatório humano privilegiado e um ponto de encontro e acolhimento para amigos e viajantes, guiado sempre pela máxima impressa em suas páginas: n"Só é feliz quem ri de si mesmo".

 

Memórias Gravadas: O Brilho por Jorge Nazar e o Segredo de Portinari

 

Tive o privilégio de realizar várias entrevistas com Nacime para o meu documentário “Nossas Memórias” e para o filme sobre a vida do Dr. Jorge Nazar. Diante da câmera, ele abria o baú de suas lembranças e revelava a Batatais de ouro. Lembro-me perfeitamente de que, sempre que eu lhe perguntava sobre o saudoso Dr. Jorge Nazar, os olhos de Nacime ganhavam um brilho intenso, uma mistura de profunda admiração, respeito e saudade.


 DR. JORGE NAZAR E NACIME MANSUR


Não era para menos: o Dr. Jorge Nazar foi uma figura de imenso destaque na história política e social de Batatais. Atuou de forma brilhante como vereador e vice-presidente da Câmara Municipal, além de ter assumido o comando do Poder Executivo como Prefeito da cidade entre os anos de 1949 e 1951. Relembrar sua liderança e integridade comovia o velho cronista.


 CANDIDO PORTINARI E NACIME MANSUR


Mas era ao falar sobre o grande pintor Candido Portinari, de quem também foi amigo pessoal, que o relato de Nacime se transformava em uma verdadeira epopeia. Foi ele o encarregado de ir buscar pessoalmente as icônicas telas do artista que hoje compõem o acervo da Igreja Matriz Senhor Bom Jesus da Cana Verde. Em depoimento ao meu trabalho, ele revelou os bastidores dessa ousada missão no ateliê de Portinari, no Rio de Janeiro: "Precisei comprar uma carga de farinha de trigo e colocar os quadros em pé no caminhão para trazer para a Igreja Matriz. O Portinari me disse: 'Quero os quadros em perfeito estado quando chegar em Batatais, entendeu meu bom libanês Nacime'."

 

A estratégia genial de usar os sacos de farinha como amortecedores garantiu que a maior joia da arte sacra do país chegasse intacta ao seu destino. Durante a gravação, tomado pela curiosidade jornalística e histórica, perguntei a Nacime quanto ele havia cobrado por aquela viagem tão importante e arriscada. Sua resposta veio acompanhada de sua marca registrada: "Ah, o dinheiro que ganhei não deu nem para comprar uma bala..." - relembrou ele, soltando um largo sorriso.

 

Aquela viagem nunca foi por dinheiro, mas sim por amor puro a Batatais e à arte. Essa revelação histórica consolida o município como um polo de turismo cultural e sacro, provando que o nosso cronista também era um homem de ação e um herói anônimo das belas-artes locais.

 

As Obras e o Reconhecimento Nacional

 

A produção literária de Nacime Mansur é marcada pela simplicidade da linguagem e pela profunda empatia com as figuras populares da cidade. Suas principais obras publicadas são:


  • Vozes da Boemia: Uma sensível coletânea de poesias e crônicas que resgata a era de ouro das serestas, dos seresteiros e das madrugadas românticas de Batatais.


  • Causos I e Causos II: Livros que reúnem histórias cômicas, lendas urbanas e anedotas reais vividas pela população local.

 

A relevância de seus escritos rompeu fronteiras regionais. Como prova do prestígio de sua obra e de sua contribuição à cultura paulista, um de seus livros foi formalmente entregue como presente ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, projetando a memória e o folclore batataense aos mais altos círculos institucionais do país.

 

Crítica Literária: A Estética do Cotidiano e o Resgate da Oralidade

 

A literatura de Nacime Mansur ocupa um lugar singular na herança cultural de Batatais. Longe do rigor acadêmico ou do experimentalismo estético, a escrita de Mansur se ancora na tradição milenar da contabilidade oral e da crônica de costumes.

 

Em Vozes da Boemia, o autor atua como um arqueólogo do afeto. Sua poesia não busca o rebuscamento metafórico, mas sim a cadência musical das antigas serestas. Existe um lirismo nostálgico que captura o silêncio das madrugadas do interior e a melancolia dos violões. Mansur transforma a boemia em um espaço sagrado de convivência, onde a boemia não é vício, mas sim celebração da amizade e da arte poética espontânea.

 

Já nas coletâneas Causos I e Causos II, o estilo muda para dar lugar à agilidade do cronista de balcão. O grande mérito técnico de Nacime nessa obra é a habilidade de transcrever a fala popular sem artificialismos. Ele domina o tempo do humor e da anedota, o chamado timing cômico, construindo narrativas curtas, de desfechos rápidos e surpreendentes.

 

Ao registrar as figuras excêntricas, os mal-entendidos e as piadas da comunidade, Mansur faz antropologia pura travestida de literatura despretensiosa. Ele não julga seus personagens; ele os abraça. Sua escrita humaniza o homem comum do interior, garantindo que o folclore vivo de Batatais não seja soterrado pela pressa da modernidade. Trata-se de uma literatura de acolhimento, essencial para a construção da identidade e da memória afetiva local.

 

O Adeus e as Homenagens Públicas

 

Nacime Mansur faleceu em 12 de fevereiro de 2015. Sua partida gerou uma onda de comoção na cidade e motivou um voto de profundo pesar oficial emitido pela Câmara Municipal de Batatais.

 

O luto, no entanto, logo deu espaço à celebração de sua memória. O nome do escritor foi imortalizado em duas grandes frentes públicas no município:

 

  • Patrono da Feira do Livro: Nacime foi escolhido como o grande escritor homenageado na III Feira do Livro de Batatais, consolidando seu papel de referência para as novas gerações de leitores e autores locais.

 

  • Eternizado na Geografia Urbana: No mesmo ano de seu falecimento, a Prefeitura Municipal oficializou a denominação da Praça Nacime Mansur, uma área verde de convivência e lazer localizada no bairro Jardim Elisa.

 

Distinção Importante

Na história de Batatais, o nome Nacime Mansur carrega forte tradição familiar. Para fins de precisão jornalística, a figura do escritor não deve ser confundida com a de seu homônimo, o Dr. Nacime Salomão Mansur. Seu estimado filho é um renomado médico ortopedista, conhecido nacionalmente por sua dedicação à medicina e por honrar o nome e a linhagem de integridade da família Mansur.

 

CRÉDITOS

AS IMAGENS FORAM ADAPTADAS PELA REDAÇÃO DO BN COM AUXÍLIO DE IA


RESUMO DA MATÉRIA: QUEM FOI NACIME MANSUR?

 

Origens e Família: Nascido em 4 de outubro de 1927, filho de Salomão Elias Mansur e Dib Salum Dalul. Assumiu a liderança e sustento da mãe e irmãos aos 18 anos, após o falecimento precoce do pai. Pai do renomado médico ortopedista, Dr. Nacime Salomão Mansur.

 

Filosofia de Vida: Guiado pelo lema "Só é feliz quem ri de si mesmo", transformou o escritório nos fundos de sua loja em um reduto de amizade, onde recebia o amigo Luis Claret Ferreira como o "Roberto Marinho de Batatais", regado a sorrisos e cigarro de palha.

 

A Missão Portinari: Amigo de Candido Portinari, foi buscar as famosas telas do pintor no Rio de Janeiro. Camuflou os quadros em pé usando uma carga de farinha de trigo como amortecedor. Pelo feito histórico, não cobrou nada relevante do município ("não deu nem para comprar uma bala"), agindo por amor à cidade.

 

Memórias Documentadas: Deixou depoimentos marcantes gravados para o documentário Nossas Memórias e para o filme do Dr. Jorge Nazar, ambos de Luis Claret, incluindo relatos comovidos de olhos brilhantes sobre o Dr. Jorge Nazar - grande líder social e político, vereador, vice-presidente da Câmara e Prefeito de Batatais (1949-1951).

 

Reconhecimento de Peso: Seus livros alcançaram destaque nacional, chegando a ser entregues como presente institucional ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin.

 

Principais Obras: Vozes da Boemia (poesias de seresta), Causos I e Causos II (antologias de humor e tradição oral).

 

Legado Urbano e Cultural: Faleceu em 12 de fevereiro de 2015. Dá nome à Praça Nacime Mansur (Jardim Elisa) e foi patrono da Feira do Livro da cidade.

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Luis Claret Ferreira

Jornalista e pesquisador

 


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