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O ANIVERSÁRIO DO AMIGO DA ONÇA

Batatais News
há 21 minutos
8 min de leitura

Só quem está na condição de amigo tem condição de se tornar traidor.

 

 

Carlos A. Moraes | Batatais News | 23/10/ 2026

 

Há aniversários que merecem bolo, velinhas e abraços sinceros. Outros pedem uma dose de ironia, um sorriso amarelo e, por precaução, uma conferida na carteira depois do abraço. Hoje, a homenagem é dedicada a um personagem que dispensa apresentações, mas jamais dispensaria uma boa oportunidade de constranger alguém: o inconfundível Amigo da Onça.


 

Baixinho, bigodudo, de nariz comprido e olhar maliciosamente perspicaz, ele é uma daquelas raras criaturas que dispensam a necessidade de inimigos. Afinal, para que gastar tempo procurando adversários se é possível causar estragos na vida alheia sob o respeitável título de amigo?

 

O personagem nasceu do talento do cartunista pernambucano Péricles de Andrade Maranhão (1924-1961), que fez história nas páginas da revista O Cruzeiro. Durante décadas, suas tiras transformaram situações cotidianas em pequenas obras-primas do constrangimento humano. O leitor ria, a vítima murchava e o Amigo da Onça, invariavelmente satisfeito, parecia perguntar com os olhos: “Viu só o que eu fiz?”.

 

A criatura sobreviveu ao criador e ultrapassou os limites do papel. Hoje, a expressão faz parte do vocabulário popular brasileiro e identifica aquele indivíduo que, com a maior naturalidade do mundo, oferece a mão direita enquanto prepara alguma surpresa desagradável com a esquerda.

 

Convenhamos: há personagens que envelhecem. O Amigo da Onça, não.

 

Apenas se atualiza.

 

A AMIZADE, ESSA INSTITUIÇÃO TÃO MAL FREQUENTADA

 

Os dicionários apresentam a amizade como uma relação afetiva, voluntária e recíproca, sustentada pela confiança, pela lealdade, pelo companheirismo e pelo apoio mútuo. É um vínculo que não depende de parentesco, obrigação legal ou contrato assinado em cartório. Nasce da afinidade, cresce no convívio e se fortalece na reciprocidade.

 

Em uma amizade verdadeira, ninguém precisa subir em um caixote para parecer maior do que o outro. Não há superiores nem inferiores, senhores nem súditos, proprietários da verdade nem inquilinos da opinião alheia. Há respeito, liberdade e a possibilidade de discordar sem que a divergência se transforme em sentença de morte para a relação.

 

Mas a teoria é uma coisa; a prática, como sabemos, é outra. E é justamente nesse intervalo entre o que professamos e aquilo que efetivamente somos que o Amigo da Onça encontra seu habitat natural.

 

Aristóteles, o filósofo grego que dedicou reflexões importantes à amizade, distinguiu três modalidades desse vínculo: a amizade por utilidade, a amizade por prazer e a amizade fundada na virtude.

 

Na primeira, as pessoas se aproximam pelos benefícios que podem oferecer umas às outras. Na segunda, a convivência é alimentada pela satisfação, pela diversão e pelos momentos agradáveis. Na terceira, considerada a mais elevada, os amigos apreciam o caráter um do outro e desejam reciprocamente o bem, não apenas pelo que recebem, mas pelo que cada um é.

 

É uma classificação que continua bastante atual. Basta observar certos círculos de convivência para perceber que algumas amizades duram exatamente enquanto durar a utilidade do relacionamento. Outras resistem enquanto houver festas, vantagens e fotografias sorridentes. E há aquelas que permanecem mesmo quando desaparecem os benefícios, terminam as celebrações e a vida deixa de oferecer motivos para aplausos.

 

O Amigo da Onça, naturalmente, prefere as duas primeiras modalidades - e, se puder, combina as duas com uma terceira que Aristóteles não precisou catalogar: a amizade por conveniência disfarçada de virtude.

 

Seu lema não é necessariamente escrito, mas poderia ser: “Gosto muito de você, especialmente quando você me é útil”.

 

O INIMIGO AVISA. O FALSO AMIGO CONHECE O ENDEREÇO


 

Aqui chegamos ao ponto mais delicado da questão.

 

O inimigo não precisa fingir que gosta de nós. Sua hostilidade, quando evidente, ao menos nos permite identificar de onde pode vir o golpe. O falso amigo, ao contrário, circula livremente pelos territórios da confiança. Conhece nossas fragilidades, ouve nossas confidências, participa de nossas celebrações e, não raro, recebe informações que jamais entregaríamos a um adversário declarado.

 

Por isso, a traição tem uma característica que a torna particularmente dolorosa: ela pressupõe uma relação anterior de confiança, uma expectativa de lealdade que foi rompida.

 

Nem toda decepção é traição, é verdade. Pessoas discordam, mudam de opinião, cometem erros e seguem caminhos diferentes. A amizade não exige concordância permanente nem transforma o amigo em alguém obrigado a aprovar todas as nossas decisões.

 

Trair é outra coisa.

 

É romper deliberadamente a confiança estabelecida, mentir quando a verdade é devida, explorar uma confidência, agir pelas costas ou omitir-se de maneira calculada quando a lealdade exigia uma atitude.

 

E a traição não precisa acontecer em um quarto fechado, em uma conta bancária ou em uma relação amorosa. Pode ocorrer em uma reunião, em uma conversa aparentemente inocente, em uma promessa convenientemente esquecida ou em uma informação revelada no instante exato em que mais prejudicará alguém.

 

O Amigo da Onça compreende essa geometria da maldade com uma precisão admirável. Não precisa destruir uma amizade inteira. Às vezes, basta uma frase, pronunciada com o sorriso mais inocente do mundo, diante das pessoas certas.

 

Eis a sua especialidade: transformar a intimidade em munição e a convivência em oportunidade.

 

Só quem está na condição de amigo tem condição de se tornar traidor. O desconhecido pode nos prejudicar; o amigo que trai consegue fazer isso usando o crédito moral que recebeu de nós.

 

É por isso que algumas feridas não são provocadas pelo tamanho do golpe, mas pela mão que o desferiu.

 

O TALENTO DE ESTRAGAR UMA FESTA

 

Nas charges de Péricles, o cenário era quase sempre familiar: um bar, uma sala de estar, uma praia, um consultório, uma festa elegante. Pessoas empenhadas em preservar as aparências eram surpreendidas pelo personagem, que tinha a extraordinária habilidade de encontrar o ponto mais vulnerável de cada situação.

 

Alguém tentava impressionar uma mulher com uma riqueza imaginária? O Amigo da Onça aparecia para lembrar a dívida esquecida. Um pintor apresentava orgulhosamente sua obra? Lá vinha a pergunta inconveniente sobre a posição do quadro. O constrangimento era instantâneo; a explicação, desnecessária.

 

A vítima ficava sem palavras. O autor da façanha sorria. E o leitor, cúmplice involuntário, ria do desastre alheio.

 

O segredo da charge estava na quebra da polidez social. O personagem não precisava criar o problema; bastava expor a contradição entre a aparência e a realidade. Sua crueldade cômica consistia em escolher a ocasião menos apropriada para revelar aquilo que alguém preferia esconder.

 

Na vida real, porém, a brincadeira nem sempre termina em gargalhadas. Há quem use a desculpa do humor para humilhar, a liberdade de expressão para ferir e a sinceridade para justificar uma agressão desnecessária.

É curioso como certas pessoas se consideram muito sinceras justamente quando conseguem ser mais inconvenientes. Para elas, qualquer constrangimento provocado nos outros é apenas uma demonstração de franqueza. Afinal, dizem, “alguém precisava falar”.

 

E por que, entre tantas oportunidades, precisaria ser justamente diante de todos? Por que a verdade, quando realmente necessária, não poderia ser comunicada com respeito, discrição e responsabilidade?

 

Talvez porque, em alguns casos, a intenção não seja esclarecer. Seja apenas assistir ao constrangimento.

 

O Amigo da Onça é um mestre nessa arte. Se a sinceridade fosse o seu único propósito, poderia conversar em particular. Mas, nesse caso, perderia a parte mais saborosa da experiência: a plateia.

 

A VIRTUDE DE SER AMIGO - E A ARTE DE PARECER SER

 

Há uma diferença substancial entre ser amigo e representar o papel de amigo.

O primeiro se revela nos momentos em que a lealdade custa alguma coisa. O segundo costuma aparecer quando há vantagens a distribuir, prestígio a compartilhar ou oportunidades de ocupar um lugar privilegiado.

 

A amizade verdadeira não exige que o outro seja perfeito. Exige que seja tratado com dignidade, inclusive quando erra. O amigo autêntico pode advertir, discordar, corrigir e até confrontar. Mas não confunde a correção com a humilhação nem transforma a fraqueza alheia em espetáculo.

 

O falso amigo, por sua vez, é frequentemente um excelente profissional das aparências. Sabe elogiar na presença e desqualificar na ausência. Domina a linguagem dos abraços, a diplomacia dos cumprimentos e a liturgia das manifestações públicas de apreço.

 

Se houver uma fotografia, melhor ainda. Se houver testemunhas, melhor para a reputação. Se houver alguma vantagem, melhor para os negócios.

 

É uma amizade que funciona como investimento: calcula-se o aporte, avalia-se o retorno e, quando o saldo deixa de compensar, encerra-se a relação sem maiores explicações.

 

Nessa modalidade de convivência, a lealdade é um artigo de luxo, a gratidão tem prazo de validade e a memória costuma sofrer uma curiosa amnésia seletiva. Quem ontem abriu portas passa a ser inconveniente quando já não pode abrir outras.

 

Naturalmente, não se deve confundir prudência com desconfiança generalizada. Seria triste viver acreditando que todos escondem uma onça atrás do sorriso. A confiança é indispensável à convivência humana, e a maioria das relações não pode ser construída sob permanente suspeita.

 

Mas confiar não significa abdicar do discernimento. E perdoar uma falha não obriga ninguém a oferecer oportunidades ilimitadas para que a mesma deslealdade se repita.

 

Até porque a bondade não exige ingenuidade, assim como a generosidade não precisa ser acompanhada de amnésia.

 

PARABÉNS, AMIGO DA ONÇA!

 

Neste 23 de outubro, nossa homenagem vai para esse ilustre representante da fauna moral brasileira, capaz de sobreviver a mudanças de costumes, gerações, tecnologias e formas de comunicação.

 

Péricles o desenhou em uma época na qual as pessoas se reuniam em bares, festas e salas de estar. Hoje, o personagem também encontraria um ambiente bastante promissor nas redes sociais, nos grupos de mensagens e nos palcos virtuais onde a exposição alheia frequentemente vale mais do que a preservação da dignidade.

 

A tecnologia mudou. O comportamento humano, nem tanto.

 

O Amigo da Onça provavelmente já teria perfil nas redes, milhares de seguidores e uma coleção de frases sobre lealdade, respeito e gratidão. Publicaria mensagens emocionantes sobre o valor da amizade, acompanhadas de fotografias sorridentes com pessoas que, em algum momento, poderiam se tornar alvos de suas próprias ironias.

 

Seria capaz de escrever “conte sempre comigo” pela manhã e, à tarde, explicar a terceiros por que ninguém deveria contar tanto assim com o destinatário da mensagem.

 

E, se alguém o confrontasse, teria pronta a defesa universal dos inconvenientes: “Você não sabe brincar!”.

 

É possível que, depois de tudo, ainda se considerasse injustiçado. Afinal, em sua versão particular dos acontecimentos, a vítima é sempre sensível demais, o ofendido não tem senso de humor e o responsável pelo constrangimento é apenas alguém que teve a coragem de dizer a verdade.

 

O problema é que a consciência, quando funciona, costuma ser menos generosa com nossas desculpas do que nossos amigos mais complacentes.

Por isso, fica aqui o nosso brinde imaginário ao personagem que ensinou o Brasil a reconhecer, pelo menos no vocabulário, uma das figuras mais antigas das relações humanas.

 

Parabéns, Amigo da Onça! Que não lhe faltem convites, plateias e oportunidades de demonstrar seus talentos - de preferência, nas páginas do humor, onde a maldade pode provocar risos sem transformar a vida de ninguém em um campo de batalha.

E que a sua existência nos sirva de advertência: nem todo sorriso é sinal de afeto, nem todo elogio é prova de admiração e nem toda mão estendida pretende ajudar alguém a se levantar.

 

Algumas mãos estão apenas esperando o momento de empurrar.

 

UMA ÚLTIMA REFLEXÃO, ANTES DO BOLO

 

O Amigo da Onça é um personagem cômico porque nos permite rir das contradições humanas sem precisar, necessariamente, apontar o dedo para alguém. Seu valor vai além da piada: ele nos convida a examinar a distância entre aquilo que dizemos ser e aquilo que nossas atitudes revelam.

 

Afinal, todos conhecemos a importância da amizade. Poucos, entretanto, compreendem que a lealdade não se mede pela quantidade de abraços, pela frequência das visitas ou pela eloquência dos elogios. Mede-se, sobretudo, pelo comportamento quando o outro não está presente, quando já não pode oferecer vantagens e quando defendê-lo exige abrir mão de algum interesse pessoal.

 

O verdadeiro amigo não é aquele que jamais nos contraria. É aquele cuja discordância não elimina o respeito, cuja sinceridade não serve de disfarce para a crueldade e cuja presença não precisa ser temida quando estamos vulneráveis.

 

O Amigo da Onça, em contrapartida, ensina uma lição involuntária: há pessoas que conhecem perfeitamente a linguagem da amizade, mas não necessariamente o seu significado.

 

E talvez seja essa a ironia maior de todas: o personagem que se tornou símbolo da falsidade nos ajuda a reconhecer o valor daquilo que ele próprio não representa.

 

No fim das contas, a onça não é o maior perigo. O perigo está em quem conhece o caminho até ela, sabe que estamos desprotegidos e, em vez de nos alertar, resolve nos levar para mais perto.

 

Porque inimigos podem nos ferir por oposição. Falsos amigos conseguem fazê-lo em nome da amizade.

 

E, se o aniversariante aparecer à nossa porta com um presente e um sorriso de orelha a orelha, convém recebê-lo com educação.

 

Mas, por via das dúvidas, é melhor não lhe entregar a chave da casa.


AS IMAGENS NA MATÉRIA FORAM PREPARADAS POR MEIO DE IA


 

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