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Os colonizadores nunca foram embora

Batatais News
há 7 horas
4 min de leitura

O Brasil não é um país sem memória por acaso. Foi ensinado a esquecer.


Foram cerca de 350 anos de escravidão, com quase 5 milhões de africanos sequestrados e desembarcados aqui. Fomos o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Sem reparação, sem terra, sem nada.


Depois, tivemos uma sucessão de golpes, até chegar ao pior de todos, em 1964, escrevendo em nossa história 21 anos de ditadura militar, com centenas de mortos e desaparecidos reconhecidos pela própria Comissão Nacional da Verdade. Pessoas foram torturadas e, no final das contas, os torturados receberam como prêmio a Lei da Anistia, que protege torturadores até hoje.


Bem fez a Argentina, que sentou seus generais torturadores no banco dos réus, enquanto aqui eles viraram nomes de ruas e candidatos eleitos a cargos públicos. Um país que nunca refletiu seriamente sobre o próprio passado está convidando esse passado a voltar.


E ele volta. A pergunta é se estamos preparados para combatê-lo ou para aderir a ele.

Ensinaram o brasileiro a enxergar a política como direita de terno e gravata contra esquerda de "comunistas". Só que comunistas nós tivemos, e foram exterminados: Prestes, a ALN, o Araguaia. O anticomunismo é a ameaça preferida do sistema desde 1935-1937 e 1964... e continua dando certo até hoje.


A ditadura militar também não caiu por revolução. Terminou numa abertura "lenta, gradual e segura", conduzida pelos próprios militares. Por isso, os mesmos sobrenomes continuam mandando.


É aqui que entram o PT e Lula. Seria desonesto negar os benefícios que fizeram para o povo brasileiro, inclusive a valorização do salário mínimo e a saída do Brasil do Mapa da Fome em 2014 e, de novo, em 2025, segundo a FAO. A lista de avanços na saúde e na educação é das maiores do planeta. O olhar para os pobres jamais desamparou as classes mais abastadas.


Mas também seria desonesto chamar isso de socialismo. A Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, foi um pacto com o Mercado e nem de leve tocou nas benesses dos andares superiores. Vieram as alianças com os mesmos partidos de sempre, Temer de vice, Levy no ajuste fiscal. O metalúrgico que falava a língua do povo foi absorvido pelo sistema que dizia combater.


Mesmo assim, o prego que se destaca é martelado. Em 2016, Dilma foi derrubada por “pedaladas fiscais”, sem nenhuma acusação de enriquecimento pessoal ou corrupção, e o governo seguinte entregou o teto de gastos e a reforma trabalhista, que arruinou os direitos dos trabalhadores.


Em 2018, Lula, líder das pesquisas, foi preso e ficou 580 dias na cadeia. O STF anulou as condenações por incompetência da vara de Curitiba, além de falta de provas, e declarou Sergio Moro parcial. Sua condenação, por falta de provas, foi por "fato indeterminado" ou "ato de ofício indeterminado".


O Comitê de Direitos Humanos da ONU concluiu que o direito de Lula a um julgamento imparcial foi violado, e a imprensa internacional chamou o caso pelo nome. Com ele fora da disputa, o sistema colheu o que plantou: Jair Bolsonaro.


E a esquerda institucional? Trocou a base das ruas pelos gabinetes. Enquanto falava para dentro, em linguagem de academia, as periferias foram ocupadas pelas igrejas neopentecostais, pelos coachs e pelos grupos de WhatsApp. Hoje, quase 27% dos brasileiros adultos se declaram evangélicos (Censo 2022), e a fábrica de desinformação do bolsonarismo apoiado pelas redes soacias controladas pelas oligarquias estadunidenses fala com a maioria deles todos os dias. Há um vazio de informação correta.


Esse vazio é parte da responsabilidade da esquerda.


Apesar de haver críticas ao governo Lula nem se aproxima dos malefícios oriundos do outro lado: quase 700 mil mortos na pandemia pelo atraso das vacinas e outras medidas protocolares, um 8 de janeiro, um ex-presidente condenado pelo STF por tentativa de golpe.


Em 2022, Lula venceu por menos de dois pontos percentuais. Isso não derrotou o bolsonarismo. Quatro anos depois, este primeiro turno de 2026 mostrou que ele nunca foi embora e os dois pontos de vantagem nas urnas passou ao filho do presidiário golpista que não vê a hora de tirar o pai da prisão.


O resultado das urnas no dia 4 de outubro foi muito mais do que um alerta. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. Quatro anos depois de ter sido derrotado nas urnas, o bolsonarismo não só sobreviveu, como lidera a disputa fazendo a alegria dos neo colonialistas da América do Norte que vem dominando todo o hemisfério.


Em 25 de outubro, o Brasil elegerá, de fato, o presidente para os próximos 4 anos. E, seja qual for o resultado, o que precisamos, de fato, é de uma esquerda que se volte de novo para o povo. Uma esquerda que tenha coragem, que seja de fato a favor da maioria do povo, apesar de vivermos em uma nação dividida ao meio.


Não vivemos tempos de paz. Vivemos tempos de guerra, e quem acha que paz se constrói sem coragem não aprendeu nada com o que está ocorrendo aqui em nossa América Latina.


Lembro-me de uma história de Sierra Maestra. Um sentinela correu até Fidel Castro e disse: "Companheiro, estamos cercados. Somos cento e cinquenta, e a tropa de Fulgencio Batista é de aproximadamente oitocentos homens."


Fidel mandou reunir os cento e cinquenta homens e disse: "Olha, estamos cercados. Eles são oitocentos. NÃO VAMOS DEIXAR O INIMIGO ESCAPAR!"



 

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