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Quando a fé vira palanque: O custo público da politização das igrejas

  • Foto do escritor: Editor BN
    Editor BN
  • 26 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

O Brasil assiste, nos últimos anos, a um fenômeno que ultrapassa o campo religioso e passa a impactar diretamente o debate público: a crescente politização de segmentos expressivos do evangelicalismo. O problema não está na participação cidadã de religiosos na vida política - direito assegurado em qualquer democracia -, mas na conversão sistemática da fé em instrumento de militância ideológica e disputa de poder.

 

Esse processo tem produzido um efeito colateral grave: a substituição da missão espiritual das igrejas por agendas políticas que pouco dialogam com os próprios fundamentos teológicos que essas instituições afirmam sustentar. Em vez de espaços de formação ética, espiritual e comunitária, muitos templos passaram a operar como extensões informais de projetos partidários. Púlpitos se tornaram tribunas. Pastores, cabos eleitorais. Fiéis, massa de manobra.

 

O resultado é uma confusão deliberada entre teologia e ideologia - uma mistura que fragiliza tanto a fé quanto a democracia.

 

Entre denominações historicamente marcadas pela defesa da separação entre Igreja e Estado, como os batistas, essa guinada é ainda mais contraditória. Parte significativa dessa tradição sempre sustentou que a atuação da Igreja se dá no campo da consciência, da persuasão moral e da transformação individual, não na ocupação do aparelho estatal ou na imposição de valores religiosos por meio de leis.

 

Ao longo do tempo, essa compreensão produziu posições claras: defesa da liberdade religiosa para todos, rejeição de Estados confessionais e a convicção de que a fé não deve depender de privilégios políticos. Quando setores desse mesmo campo passam a defender governos “ungidos”, legislações “para proteger a fé” ou a ideia de que a nação só será moralmente restaurada por meio de um projeto político específico, não ocorre apenas uma mudança de estratégia - ocorre uma ruptura teológica e institucional.

 

Há, nesse movimento, uma leitura seletiva e instrumental da tradição bíblica. Textos religiosos são deslocados de seu contexto espiritual e usados para legitimar disputas de poder no presente, como se a fé cristã tivesse sido concebida para organizar Estados ou produzir hegemonias culturais. No entanto, a própria narrativa bíblica central - frequentemente invocada por esses grupos - aponta para outra direção: a distinção entre o espaço da fé e o espaço do poder político, entre a transformação do indivíduo e o controle das estruturas estatais.

 

Quando essa distinção é ignorada, o efeito é previsível. A linguagem religiosa passa a alimentar polarização, hostilidade e demonização do adversário político. Igrejas deixam de ser reconhecidas por sua mensagem ética ou espiritual e passam a ser associadas à agressividade retórica, ao sectarismo e à intolerância. O que antes gerava questionamento por suas convicções passa a gerar rejeição por seu comportamento público.

 

Não é por acaso que, cada vez mais, setores da sociedade não veem essas instituições como espaços de cuidado, mediação social ou construção de valores comuns, mas como mais um grupo de pressão ideológica disputando influência no Estado. A fé, nesse cenário, perde densidade moral e ganha utilidade eleitoral.

 

Esse processo cobra um preço alto. Para a democracia, porque enfraquece a noção de Estado laico ao tentar capturá-lo em nome de uma crença específica. Para a própria religião, porque subordina sua mensagem a ciclos eleitorais, líderes circunstanciais e projetos de poder que, inevitavelmente, se desgastam.

 

Há, portanto, um dilema incontornável colocado às lideranças religiosas: ou preservam a autonomia moral da fé, mantendo distância crítica do poder político, ou aceitam transformá-la em ferramenta de mobilização ideológica - com todos os riscos e perdas que isso implica.

 

A história mostra que religiões sobrevivem quando mantêm sua autoridade ética independente do Estado. Quando se confundem com ele, tornam-se reféns de governos, partidos e conjunturas. O desafio, especialmente para denominações que sempre defenderam a liberdade de consciência e a separação entre Igreja e poder político, é decidir se ainda estão dispostas a sustentar esses princípios ou se preferem abandoná-los em troca de influência imediata.

 

No fim das contas, a questão não é apenas religiosa. É pública. Porque quando a fé deixa de iluminar consciências para disputar poder, o prejuízo não é só das igrejas - é da sociedade como um todo.

 

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