Santuário de Batatais localiza restos mortais de seu primeiro pároco após 186 anos
- Editor BN

- há 22 horas
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Uma das mais antigas e intrigantes questões da historiografia batataense acaba de ser esclarecida. Após 186 anos de incertezas, pesquisas realizadas junto aos arquivos da Igreja Católica permitiram localizar os restos mortais do Padre Bento Jozé Pereira, primeiro pároco da Freguesia do Bom Jesus da Cana Verde dos Batatais e personagem fundamental no processo que deu origem à atual cidade de Batatais.

A descoberta, considerada um dos mais importantes acontecimentos históricos recentes relacionados à memória do município, foi confirmada por documentação oficial da Cúria Metropolitana de São Paulo. Os registros identificam com precisão o local onde o sacerdote foi sepultado em 1840: a cripta da histórica Igreja da Ordem Terceira do Carmo, na capital paulista.
O achado encerra um mistério que atravessou quase dois séculos e abre caminho para um novo capítulo na preservação da história local. Em articulação entre a Arquidiocese de Ribeirão Preto e a Arquidiocese de São Paulo, deverá ser iniciado um processo eclesiástico para a exumação e translado das exéquias do sacerdote, permitindo que ele retorne definitivamente à cidade cuja formação ajudou a construir.
O homem que moldou a nova Batatais
A relevância histórica de Padre Bento Jozé Pereira transcende sua atuação religiosa. A historiografia contemporânea tem reconhecido sua participação decisiva no processo de transferência da sede da freguesia para a região conhecida como Campo Lindo das Araras, fato que determinou o surgimento do núcleo urbano que daria origem à cidade de Batatais.
No início do século XIX, a população local encontrava-se dividida. Parte dos moradores permanecia vinculada ao antigo arraial, onde havia sido erguida, de forma improvisada e apressada, uma pequena igreja que a tradição histórica passou a denominar de “capela tosca”. Outra parcela defendia a mudança da sede religiosa e administrativa para uma área considerada mais adequada ao desenvolvimento da freguesia.
Após o falecimento do Padre Manuel Pompeu de Arruda, em 19 de setembro de 1820, Padre Bento assumiu progressivamente protagonismo nesse processo. Em 25 de setembro de 1821 foi expedida a provisão para a construção da nova matriz, marco decisivo para a transferência da sede paroquial.
A controvérsia prolongou-se por vários anos. A doação do terreno por Germano Moreira e Ana Luísa, em agosto de 1822, permitiu o início das obras da nova capela em 1823. O debate opunha, de um lado, o pároco e seus apoiadores; de outro, importantes lideranças locais, entre elas Manoel Bernardes do Nascimento e o alferes Antônio José Dias, defensores da permanência da antiga localização.
Os documentos da época revelam uma disputa que envolvia não apenas aspectos religiosos, mas também interesses econômicos, políticos e simbólicos. A presença da matriz representava prestígio, influência e valorização das propriedades ao seu redor. Nesse contexto, Padre Bento destacou-se pela firmeza de suas posições e pela defesa sistemática da transferência.
O apoio de Dom Mateus de Abreu Pereira
Fundamental para o êxito do projeto foi o apoio do então Bispo de São Paulo, Dom Mateus de Abreu Pereira (1742-1824), uma das personalidades mais influentes da vida política e religiosa paulista durante o período da Independência do Brasil.
Dom Mateus exerceu papel relevante na administração da província e participou ativamente dos acontecimentos que cercaram a emancipação política brasileira. Sob sua liderança foram conduzidos importantes processos ligados à organização eclesiástica da região, incluindo a criação da freguesia de Batatais em 1815, a definição de seus limites em 1818 e a transferência da matriz entre 1821 e 1823.
Com a manutenção da decisão episcopal, a sede da freguesia foi definitivamente transferida para o novo local, consolidando o projeto urbanístico que serviria de base para o crescimento da cidade. A antiga “capela tosca” foi abandonada, e o novo núcleo urbano passou a concentrar a vida religiosa e social da comunidade.
O desaparecimento do fundador
Apesar de sua importância histórica, o destino de Padre Bento permaneceu envolto em dúvidas durante gerações.

Em sua obra A Freguezia dos Batataes (2000), o historiador Tambellini registrou a dificuldade de determinar o paradeiro do sacerdote após sua saída da freguesia. Pesquisas posteriores do historiador Sérgio Corrêa Amaro revelaram que ele havia solicitado transferência pouco depois da morte de Dom Mateus, ocorrida em maio de 1824.
Documentação publicada no Diário Fluminense de 21 de julho de 1824 comprova que Padre Bento permutou sua função com o Padre Antônio José de Carvalho, então responsável pela Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Juqueri, atual município de Mairiporã. Permaneceu naquele local até outubro de 1828.
Posteriormente, estabeleceu-se na cidade de São Paulo, onde passou a atuar como professor de primeiras letras.
Durante décadas acreditou-se que sua morte teria ocorrido por volta de 1850. Essa informação, entretanto, mostrou-se incorreta.
A descoberta documental que mudou a história
A solução do enigma surgiu a partir de uma investigação conduzida pelo pesquisador Luis Claret Ferreira junto ao Arquivo Metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva.
Em resposta oficial encaminhada pelo diretor técnico da instituição, Jair Mongelli Junior, foi localizado o registro original de óbito do sacerdote no Livro 03-01-34 da Paróquia da Sé, página 137 verso.
O documento revela que Padre Bento Jozé Pereira faleceu em 24 de dezembro de 1840, aos 50 anos de idade, dez anos antes do que se supunha até então.
O registro histórico informa:
“Rdo. Pe. Bento Jozé Pereira - Aos vinte e quatro de Dezembro de 1840, nesta freguezia, com idade de sincoenta annos, por morte repentina e por isto apenas ungido, falleceo o Reverendo Padre Bento Jozé Pereira, mestre de primeiras letras nesta Cidade: Encommendado foi sepultado no jazigo da Ordem Terceira do Carmo. Não consta tivesse testamento.”
Mais do que corrigir uma data, o documento solucionou definitivamente o mistério sobre o local de sepultamento do sacerdote, permitindo identificar o exato destino de seus restos mortais.
O retorno do pioneiro à cidade que ajudou a fundar
Com a localização confirmada da sepultura, o Santuário Bom Jesus da Cana Verde prepara-se para iniciar, em conjunto com as autoridades eclesiásticas competentes, os procedimentos necessários para a exumação e transferência das exéquias.
O processo será conduzido pelo reitor do santuário, Padre Pedro Ricardo Bartolomeu, em colaboração com a Arquidiocese de Ribeirão Preto e a Cúria Metropolitana de São Paulo.
A intenção é que os restos mortais de Padre Bento Jozé Pereira retornem definitivamente a Batatais, recebendo sepultamento solene no principal templo religioso da cidade.
Além do significado religioso, a iniciativa representa um ato de reparação histórica. A documentação obtida durante a investigação, bem como os registros relacionados ao translado, serão incorporados ao Livro de Tombo da paróquia, preservando para as futuras gerações a memória daquele que liderou uma das mais importantes transformações da história local.
Após 186 anos de ausência, o sacerdote que enfrentou resistências, conduziu a transferência da matriz e ajudou a definir o espaço urbano da Batatais contemporânea poderá, enfim, retornar à cidade que ajudou a fundar.
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Fontes
Jornal A Notícia Nº 276, por Sérgio Corrêa Amaro
História do Município Câmara Municipal de Batatais
Portal de Revistas da USP
Dr. Pintassilgo - Migalhas
Com apuração de Luis Claret Ferreira
Luis Claret Ferreira
Carlos Alberto Moraes






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