Conego Eloy Pupin recebe despedida marcada por fé, emoção e reconhecimento em Batatais
- Batatais News
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Batatais viveu no domingo, 16 de agosto, um dia marcado pelo luto, pela fé e pela emoção. Aos 92 anos, morreu na madrugada o Cônego Eloy Pupin, sacerdote cuja trajetória se confunde com parte importante da história religiosa, educacional e social do município.

Depois de oito dias internado, Padre Eloy partiu justamente no domingo em que a Igreja celebrava a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora - uma coincidência que ganhou significado especial diante da profunda devoção mariana que cultivou durante toda a vida.
Desde as primeiras horas do dia, os sinos do Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde dobraram de hora em hora. O som que se espalhou pelo centro da cidade anunciava a morte daquele que, durante décadas, esteve diante do altar, mas também nas salas de aula, nas comunidades dos bairros, nas instituições e em diferentes iniciativas da vida social de Batatais.
Uma vida construída entre o campo, o trabalho e o sacerdócio
Eloy Pupin nasceu em 23 de fevereiro de 1934, no Sítio Monte Belo, em Brodowski, filho de Paulo Pupin e Regina Capeloci Pupin. Cresceu em uma família numerosa, profundamente ligado à vida rural.
Em 1957, aos 23 anos, mudou-se com a família para Batatais. Antes de seguir a vocação religiosa, conheceu de perto o mundo do trabalho. Durante aproximadamente três anos, foi frentista no Posto São Jorge, de Zeferino Mazzo. Depois trabalhou como faxineiro e cobrador no Clube XIV de Março.
Foi somente aos 29 anos, em 1963, que tomou a decisão que mudaria definitivamente sua vida: ingressar no seminário.
Estudou em São Paulo, formando-se em Filosofia, Psicologia e Sociologia, e posteriormente cursou Teologia no Instituto Teológico Pio XI. Em 1973 foi ordenado diácono e, em 20 de janeiro de 1974, recebeu a ordenação sacerdotal das mãos de Dom Bernardo José Bueno Miele, justamente na Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, em Batatais.
Depois da ordenação, exerceu o ministério em Sertãozinho, Ribeirão Preto e Brodowski. Entre 1976 e 1978, foi reitor do Seminário Maior da Província Eclesiástica de Ribeirão Preto, participando diretamente da formação de futuros sacerdotes.
Em julho de 1979, retornou a Batatais como vigário paroquial do então pároco, Monsenhor Mário da Cunha Sarmento. Em 19 de março de 1980, foi nomeado pároco do Senhor Bom Jesus da Cana Verde.
Começava ali uma das etapas mais longas e marcantes de sua caminhada.
Um sacerdote que ajudou a levar a Igreja aos bairros

Padre Eloy acompanhou o crescimento de Batatais e percebeu que a presença da Igreja precisava ultrapassar os limites da região central.
Durante seu paroquiato, foram criadas ou estruturadas comunidades dedicadas ao Menino Jesus de Praga, São Cristóvão, Nossa Senhora Auxiliadora, São Francisco, Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora Aparecida, Santa Luzia e Nossa Senhora de Fátima, com suas respectivas igrejas e centros catequéticos.
Também foram implantadas ou fortalecidas pastorais da Criança, da Saúde, de Casais e da Juventude, além de movimentos como o Serra Clube e o Cursilho de Cristandade.
Entre as obras materiais de sua administração esteve a substituição do piso da Igreja Matriz, empreendimento de grandes proporções que, à época, foi orçado em mais de R$ 110 mil e mobilizou a comunidade.
Sua atuação, entretanto, foi muito além dos limites da Igreja.
Padre Eloy participou de iniciativas relacionadas à construção de moradias populares, integrou a mesa diretora da Santa Casa e esteve entre os fundadores do Festival Gastronômico e Cultural de San Gennaro.
Professor, estudioso e formador
O magistério foi outra dimensão importante de sua vida.
No Seminário de Brodowski, lecionou Lógica, História da Filosofia Antiga, Cultura Religiosa, Filosofia da Religião e Parapsicologia. Também foi professor no Centro Universitário Claretiano e em outras instituições de ensino.
A Parapsicologia tornou-se uma de suas áreas de especial dedicação. Padre Eloy ministrou cursos de Parapsicologia Pastoral em Batatais, Bebedouro, Jardinópolis, Ribeirão Preto e Sertãozinho, aprofundando durante anos seus estudos sobre o tema.
Em 2015, publicou o livro Parapsicologia e Religião, registrando parte do conhecimento acumulado ao longo de décadas de estudo, ensino e atendimento às pessoas.
Como reconhecimento por sua trajetória sacerdotal, recebeu de Dom Joviano de Lima Júnior o título de Cônego.
Em 6 de janeiro de 2008, tornou-se Pároco Emérito do Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde.
Para muitas gerações, porém, independentemente de títulos, continuaria sendo simplesmente Padre Eloy.
O Santuário se transforma em cenário da última despedida

Na tarde deste domingo, o mesmo Santuário onde Cônego Eloy escreveu algumas das páginas mais importantes de seu ministério tornou-se o cenário de sua última despedida.
Às 14h30 teve início a Celebração das Exéquias, presidida pelo arcebispo metropolitano de Ribeirão Preto, Dom Moacir Silva.
Ao redor do altar reuniram-se diversos sacerdotes, entre eles padres da Catedral Metropolitana, sacerdotes de Ribeirão Preto e de diferentes cidades da região. Também participou da celebração o reitor do Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Padre Pedro Ricardo Bartolomeu.

Centenas de pessoas ocuparam o Santuário.
Familiares, amigos, antigos paroquianos, alunos e pessoas que, em diferentes momentos de suas vidas, encontraram em Padre Eloy um sacerdote, um professor, um conselheiro ou simplesmente um amigo, foram prestar sua última homenagem.
Segundo informações da administração do Santuário, mais de mil pessoas passaram pelo velório. A Celebração das Exéquias e a despedida reuniram mais de 600 pessoas.
Dom Moacir recorda o sacerdote e o estudioso
Durante a homilia, Dom Moacir Silva lamentou a morte de Padre Eloy e destacou especialmente sua experiência e seu profundo conhecimento da Parapsicologia.

O arcebispo contou que, diante de determinadas situações envolvendo pessoas que apresentavam sofrimentos e problemas que exigiam uma compreensão especial, muitas vezes recorria ao sacerdote.
Encontrava em Padre Eloy não apenas um religioso experiente, capaz de oferecer conforto espiritual, mas também um estudioso que havia dedicado décadas à compreensão de questões relacionadas à mente e ao comportamento humano.
Padre Eloy procurava ajudar aqueles que enfrentavam angústias, medos e sofrimentos interiores, buscando compreender essas situações também à luz de seus conhecimentos de Parapsicologia.
“Eu vi Nossa Senhora”
Foi então que Dom Moacir revelou um dos relatos mais íntimos e emocionantes de Padre Eloy.
O arcebispo contou que, certa ocasião, o sacerdote precisou passar por uma cirurgia no Hospital de Amor, em Barretos.
Pouco antes de receber a anestesia, segundo o relato feito posteriormente a Dom Moacir, Padre Eloy fechou os olhos.
Naquele instante, viveu uma experiência que jamais esqueceu.
Segundo contou ao arcebispo, viu Nossa Senhora ao seu lado, confortando-o naquele momento de apreensão.
A mensagem que Padre Eloy disse ter recebido foi de serenidade e confiança:
“Tudo vai dar certo. Fique tranquilo, meu filho. Estarei ao seu lado o tempo todo.”
Ao contar a experiência a Dom Moacir, o sacerdote se emocionou.
Com lágrimas nos olhos, afirmou:
“Eu vi Nossa Senhora.”
Recordado durante suas próprias exéquias, o episódio provocou forte emoção entre os presentes.
Não era apenas a lembrança de um relato ocorrido em um momento de fragilidade física. Era também a manifestação de uma dimensão profundamente íntima da espiritualidade de Padre Eloy.
O sacerdote que durante décadas consolou enfermos e famílias também havia encontrado consolo quando ele próprio se encontrava diante da incerteza de uma cirurgia.
Uma devoção que o acompanhou até o fim
Dom Moacir lembrou ainda da profunda devoção de Padre Eloy a Nossa Senhora, particularmente a Nossa Senhora Auxiliadora.
E a data de sua morte tornou essa lembrança ainda mais significativa.
Cônego Eloy Pupin morreu na madrugada de 16 de agosto de 2026, justamente no domingo em que a Igreja celebrava a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
Durante a cerimônia também foi recordado outro fato significativo para a família: anos antes, sua própria mãe havia falecido na mesma data.
Para aqueles que conheciam sua devoção mariana, a coincidência tornou a despedida ainda mais emocionante.
O homem que um dia contou, em lágrimas, ter visto Nossa Senhora ao lado de seu leito antes de uma cirurgia encerrava sua caminhada terrena justamente em um domingo dedicado à Assunção de Maria.
“Aprendi muito com ele”
Também emocionado, o reitor do Santuário, Padre Pedro Ricardo Bartolomeu, recordou sua chegada a Batatais e o período em que trabalhou como coadjutor de Padre Eloy.
Falou dos ensinamentos recebidos, da convivência entre os dois sacerdotes e da profunda admiração que sempre manteve pelo amigo.
Suas palavras revelaram que os ensinamentos de Padre Eloy não permaneceram apenas nas salas de aula.
Ele ensinou também pela experiência, pelo conselho, pela convivência e pelo exercício cotidiano do sacerdócio.
Naquela tarde, o antigo professor continuava ensinando — agora através da memória daqueles que conviveram com ele.
A última encomendação
Ao término da Celebração das Exéquias, aconteceu um dos momentos mais comoventes da despedida.
Diante do esquife, Dom Moacir Silva realizou o rito da última encomendação do corpo de Cônego Eloy Pupin.

As últimas orações foram pronunciadas diante de uma igreja tomada pela emoção.
Depois, o corpo deixou o Santuário e seguiu em cortejo para o sepultamento, acompanhado por uma guarda de honra formada por integrantes da Guarda Municipal de Batatais.
Sacerdotes, familiares, amigos e fiéis acompanharam aquela última caminhada.
O corpo de Cônego Eloy Pupin foi conduzido ao Cemitério Bom Jesus, onde recebeu sepultura.
Os sinos dobraram por Padre Eloy

Durante décadas, Padre Eloy esteve presente nos momentos fundamentais da vida de incontáveis famílias.
Celebrou missas, batizou crianças, abençoou casamentos, visitou enfermos, consolou famílias, ouviu confissões, aconselhou, ensinou e acompanhou gerações.
Construiu e fortaleceu comunidades.
Esteve nas salas de aula.
Participou da vida das instituições.
Ajudou pessoas que chegavam até ele buscando respostas para sofrimentos que, muitas vezes, nem sabiam explicar.
Neste domingo, porém, os papéis se inverteram.
A comunidade que tantas vezes encontrou nele uma palavra de conforto foi ao Santuário para se despedir.
O sacerdote que tantas vezes acompanhou seus paroquianos diante da morte foi, desta vez, conduzido em sua própria última procissão.
O padre que tantas vezes pronunciou as orações das exéquias recebeu, das mãos de seu arcebispo, sua última encomendação.
E os sinos que Padre Eloy tantas vezes ouviu tocar durante sua longa caminhada sacerdotal, naquele domingo, dobraram por ele.
Sua vida começou na simplicidade do campo.
Passou pelo trabalho de frentista, faxineiro e cobrador, pelo seminário, pelas universidades, pelas salas de aula, pela formação de sacerdotes e chegou ao altar do Senhor Bom Jesus da Cana Verde.
Em Batatais, Padre Eloy celebrou, ensinou, construiu comunidades e atravessou gerações.
Sua presença ficou registrada não apenas nos documentos da Igreja, mas nas comunidades que ajudou a formar, nas instituições das quais participou, nas salas onde ensinou e, sobretudo, na memória daqueles que encontraram nele o sacerdote, o professor e o conselheiro.
Depois de oito dias internado, sua caminhada chegou ao fim na madrugada de 16 de agosto.
Tinha 92 anos.
Partiu no domingo da Assunção de Maria, a quem dedicou especial devoção.

Partiu em Batatais, cidade onde viveu grande parte de seu sacerdócio.
E recebeu a última despedida no Santuário onde, durante décadas, ajudou a escrever uma importante página da história religiosa da cidade.
Naquele domingo, enquanto os sinos dobravam, permanecia a lembrança de uma frase que Dom Moacir trouxe de volta durante a homilia e que, naquele momento, parecia adquirir um significado ainda mais profundo:
“Eu vi Nossa Senhora.”
Morre o homem. Silencia-se a voz do sacerdote. Dobram os sinos. Mas aquilo que uma vida inteira construiu permanece.
E quando a história religiosa de Batatais das últimas décadas for contada, haverá um nome que não poderá ser esquecido: Cônego Eloy Pupin.
"Réquiem aeternam dona ei, Domine".
Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno.
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MATÉRIA DO JORNALISTA
LUIS CLARET FERREIRA PARA O
BATATAIS NEWS
PODE SER REPRODUZIDA NA ÍNTEGRA CITANDO A FONTE






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