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LULA, A PRAGA DA AGRICULTURA!

Batatais News
há 11 horas
7 min de leitura

A curiosa história de como o presidente que o agro jura odiar foi, na prática, quem pagou a conta da caminhonete zero, do trator novo, da colheitadeira de milhões e da festa inteira do agronegócio brasileiro.


 

A "PRAGA" QUE CHEGOU AO PLANALTO

 

Existe uma cena recorrente no Brasil de hoje.

 

De um lado, um presidente que governa. Do outro, uma parcela barulhenta do agronegócio que o trata como praga, inimigo do campo, ameaça da propriedade rural, ideólogo contra o produtor.

 

A cena é tão repetida que quase ninguém se dá ao trabalho de conferir o óbvio.

Porque quando se abre o arquivo, quando se consulta o Diário Oficial, quando se lê o Plano Safra, quando se examina a lei, o decreto, a resolução do Banco Central, o comunicado do Ministério da Agricultura, a história contada pelo agro não se sustenta.

 

Lula não chegou ao Planalto para destruir o agro.

 

Lula chegou ao Planalto numa hora em que o agro precisava, acima de tudo, de uma coisa muito concreta: dinheiro.


E dinheiro, o agro recebeu. Muito.

 

QUANDO O DINHEIRO COMEÇOU A CHEGAR AO CAMPO


 

Em 2002/2003, o Plano Safra anunciava cerca de R$ 20,5 bilhões para financiar a agricultura brasileira.

 

Em 2010, último ano do segundo mandato de Lula, o Plano Safra já anunciava aproximadamente R$ 100 bilhões apenas para a agricultura empresarial - sem contar os recursos da agricultura familiar.

 

Não é retórica. É conta.

 

Em 2023/2024, no terceiro mandato, foram R$ 364,22 bilhões destinados à agricultura empresarial. O PRONAMP, o programa do médio produtor, recebeu sozinho R$ 61,14 bilhões.

 

Em 2025/2026, a agricultura empresarial recebeu R$ 516,2 bilhões. Em 2026/2027, o governo anunciou R$ 525,1 bilhões em crédito para agricultura empresarial, incluindo PRONAMP, MODERFROTA, INOVAGRO, PROIRRIGA, PCA e PRODECOOP.

 

Então vamos combinar uma coisa: se essa é a "praga" que o agro diz querer combater, é uma praga bastante generosa. Uma praga que despeja centenas de bilhões de reais por safra na conta do produtor rural. Uma praga que, segundo os próprios números oficiais do Ministério da Agricultura, beneficia diretamente médios e grandes produtores.

 

Dizer que Lula fez política só para pequeno agricultor é, no mínimo, uma preguiça enorme com a realidade.

 

O TRATOR FINANCIADO TAMBÉM TEM HISTÓRIA

 

Agricultura é capital intensivo. Trator custa dinheiro. Colheitadeira custa dinheiro. Pulverizador custa dinheiro. Caminhonete custa dinheiro. Sistema de irrigação custa dinheiro. Armazém custa dinheiro. E o produtor paga tudo isso antes de receber um único centavo da colheita.

 

Por isso, crédito rural não é favor. É infraestrutura econômica.

 

E foi nesse terreno que Lula deixou a sua marca mais concreta.

 

Em 2004, a Lei nº 11.076 criou os instrumentos que hoje sustentam o financiamento privado do agronegócio: a LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), o CDCA e o CRA. Não foi um programa de governo. Foi uma arquitetura financeira inteira, desenhada para conectar o sistema financeiro à cadeia agropecuária.

 

Em 2003, a Lei nº 10.823 autorizou a subvenção econômica ao prêmio do Seguro Rural - ou seja, o governo passou a pagar parte do seguro do produtor. Uma ferramenta de gestão de risco que qualquer grande produtor sabe valorizar.

 

Em 2008, dentro do Pronaf, foi criado o Programa Mais Alimentos, financiando máquinas, equipamentos e infraestrutura.

 

E para a agricultura empresarial, havia - e há - o MODERFROTA, a linha do BNDES específica para trator, colheitadeira, pulverizador, plantadeira, semeadora.

 

O pequeno produtor teve uma porta. O médio produtor teve outra. O grande produtor também teve.

 

E hoje, quando o produtor estaciona a caminhonete zero quilômetro na frente da sede da fazenda, quando ele liga a colheitadeira nova, quando ele renova a frota, vale a pena perguntar: quem financiou essa festa?

 

A resposta está no Diário Oficial.

 

A CHINA, OS MERCADOS INTERNACIONAIS E A DIPLOMACIA

 

Produzir mais não resolve tudo. É preciso vender.

 

E aqui entra um capítulo que o agro prefere não lembrar em voz alta.

Em 24 de maio de 2004, em Pequim, Brasil e China criaram a COSBAN - a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação. Foi no governo Lula. Foi com a diplomacia de Lula. Foi com a orientação estratégica do governo Lula.

 

Não foi Lula sozinho que "criou o mercado chinês". Seria exagero. A expansão comercial com a China é resultado de um processo longo, envolvendo governos, empresas, produtores, negociações sanitárias.

 

Mas também seria desonesto fingir que a aproximação estratégica iniciada naquele período não foi decisiva. A China se tornou o principal destino das exportações brasileiras. E isso interessa diretamente ao produtor de soja, de carne, de milho, de minério, de celulose.

 

Em dezembro de 2004, o Decreto nº 5.297 criou o arcabouço do biodiesel e o Selo Combustível Social, abrindo uma nova demanda para matérias-primas agrícolas e conectando agro, indústria e energia.

 

Mercado não cai do céu. Mercado se constrói. E quem construiu boa parte dos mercados que hoje sustentam o agro brasileiro foi exatamente o governo que o agro diz querer apagar.

 

PEQUENO PRODUTOR TAMBÉM É AGRO

 

Há uma imagem consagrada do agro: a fazenda gigante, a plantação infinita, a colheitadeira milionária, a caminhonete blindada.

 

Mas existe outro Brasil rural.

 

O produtor de hortaliça. O produtor de leite. O pequeno pecuarista. O fruticultor. A cooperativa. A agricultura familiar.

 

Para esse Brasil, Lula também olhou.

 

Em 2003, a Lei nº 10.696 instituiu o PAA - o Programa de Aquisição de Alimentos. O governo comprava diretamente do agricultor familiar, garantindo renda, produção e inclusão econômica.

 

Não é o agro da soja. Não é o agro da carne exportada. Mas é agro também. E foi tratado como agro.

 

A ironia é que, quando o pequeno produtor prospera, ele compra do mesmo fornecedor de insumos, ele contrata o mesmo técnico, ele movimenta a mesma economia rural que sustenta o médio e o grande produtor.

 

Então, mesmo quando Lula olhava para o pequeno, ele estava, indiretamente, ajudando a engrenagem inteira do campo.

 

EMBRAPA, TECNOLOGIA E PRODUTIVIDADE

 

Em 2010, no final do segundo mandato de Lula, nasceu o Programa ABC - Agricultura de Baixa Emissão de Carbono. A Resolução CMN nº 3.896, de 17 de agosto de 2010, institucionalizou a linha de crédito. Inicialmente, foram R$ 2 bilhões a 5,5% ao ano, para recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta, conservação de solos, florestas comerciais.

 

A Embrapa forneceu a base técnica. O ILPF virou estratégia de produção sustentável. O ZARC, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, consolidou-se como ferramenta essencial.

 

Sim, a Embrapa é anterior a Lula. Sim, o ZARC começou em 1996. Seria desonesto dizer o contrário.

 

Mas também seria desonesto fingir que essas instituições não foram fortalecidas, financiadas e colocadas no centro da política agrícola justamente nos governos Lula.

 

Tecnologia não se sustenta sozinha. Ela precisa de política pública, de recurso, de direção estratégica. E essa direção, naquele período, passou pelo Planalto.

 

O AGRO QUE CRESCEU - E DEPOIS ESQUECEU

 

Chegamos ao ponto mais incômodo da história.

 

O agro brasileiro cresceu. Muito. Virou potência. Virou referência mundial. Virou o "pop" do PIB, o "habemus" de todo discurso oficial, o "é o agro que é pop, é o pop do agro" de toda campanha publicitária.

 

E, nesse processo, desenvolveu uma memória bastante seletiva.

 

  • Esqueceu que, quando precisou de crédito, o crédito chegou.

  • Esqueceu que, quando precisou de instrumento financeiro, o instrumento foi criado.

  • Esqueceu que, quando precisou de mercado, o mercado foi negociado.

  • Esqueceu que, quando precisou de seguro, o seguro foi subsidiado.

  • Esqueceu que, quando precisou de máquina, a máquina foi financiada.

  • Esqueceu que, quando precisou de tecnologia, a tecnologia foi financiada.

  • Esqueceu que, quando precisou de escala, a escala foi construída com recursos públicos.

 

E agora, confortável na caminhonete nova, na colheitadeira de milhões, na fazenda que vale mais que muitos municípios, o agro olha para Lula e diz: praga.

 

A IRONIA DA MEMÓRIA SELETIVA

 

Vale repetir, porque a ironia merece ser saboreada.

 

O agro que hoje xinga Lula foi o agro que recebeu R$ 364,22 bilhões em 2023/2024.

Foi o agro que recebeu R$ 516,2 bilhões em 2025/2026. É o agro que vai receber R$ 525,1 bilhões em 2026/2027. É o agro que tem LCA, CDCA, CRA, MODERFROTA, PRONAMP, INOVAGRO, PROIRRIGA, PCA, PRODECOOP, Seguro Rural subsidiado, Programa ABC, biodiesel, COSBAN, PAA, Mais Alimentos.

 

É o agro que, em termos de crédito público, nunca esteve tão bem servido.

E mesmo assim, chama Lula de praga.

 

Se isso não é ironia, o que é?

 

CONCLUSÃO: OUTRAS PRAGAS VIRÃO

 

Governos passam. Presidentes passam. Partidos passam. Políticas mudam.

O produtor continua plantando. A boiada continua andando. A máquina continua trabalhando. A colheitadeira continua colhendo. O Brasil continua precisando produzir.

 

Outras "pragas" virão.

 

Algumas serão aplaudidas. Outras serão vaiadas.

 

Mas, quando se olha para o registro oficial, para a lei, para o decreto, para o Plano Safra, para a resolução do Banco Central, para o comunicado do Ministério da Agricultura, existe uma ironia que nenhuma disputa política consegue apagar: a "praga" que o agro diz querer combater foi, segundo os próprios números do governo federal, responsável por uma das maiores expansões de crédito, financiamento, modernização e apoio à agricultura empresarial da história do Brasil.

 

E talvez, depois de tudo isso, a pergunta não seja se Lula foi uma praga para o agro.

 

A pergunta é outra: que outra "praga" será capaz de colocar, no bolso do produtor, tanto quanto aquela que o próprio agro passou a chamar de inimiga?

 

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Fontes oficiais utilizadas: Lei nº 11.076/2004 (LCA, CDCA, CRA) · Lei nº 10.823/2003 (subvenção ao Seguro Rural) · Lei nº 10.696/2003 (PAA) · Decreto nº 5.297/2004 (biodiesel e Selo Combustível Social) · Programa Mais Alimentos (2008) · Moderfrota/BNDES · Plano Safra 2023/24, 2025/26 e 2026/27 (MAPA) · COSBAN (24/05/2004) · Programa ABC (Resolução CMN nº 3.896/2010 e Embrapa) · ZARC/Embrapa · ILPF/MAPA.

 

NOTA DA REDAÇÃO:



Todos nós que torcemos para um Brasil soberano temos grande receio do que seria para o Brasil e, especialmente para o agronegócio, com os EUA dizendo o que o Brasil deverá fazer em relação à China. No quintal quem manda é o dono. Com os EUA sabemos que negociam apenas para eles mesmos ganharem. Sempre foi assim. Com a China, que vai ganhando parceiros no mundo todo, a filosofia é a do ganha-ganha. Os dois lados ganham.




 

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