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O perigo não é apenas Trump: É a ilusão de que nada está mudando

  • Foto do escritor: Carlos Moraes
    Carlos Moraes
  • 28 de fev.
  • 3 min de leitura

Há momentos na história em que as nações enfrentam ameaças visíveis - e outros em que o perigo se instala silenciosamente, por meio da negação coletiva. Os Estados Unidos parecem caminhar perigosamente na segunda direção.

 

O debate público internacional muitas vezes se fixa na figura de Donald Trump como se ele fosse, sozinho, a causa de todas as tensões institucionais e geopolíticas. Essa leitura é confortável - e superficial. Trump não é a origem da crise americana; ele é, no máximo, seu sintoma mais barulhento.

 

O verdadeiro problema é mais profundo: trata-se de um sistema político hiperpolarizado assentado sobre uma estrutura econômica cada vez mais pressionada.

 

A tentação histórica de unir pela ameaça externa

 

A história mostra que sociedades profundamente divididas tendem a buscar coesão quando confrontadas por inimigos externos. Nos Estados Unidos, isso já ocorreu diversas vezes ao longo do século XX e início do XXI.

 

O problema não é reconhecer ameaças reais. O problema surge quando a lógica do confronto permanente passa a funcionar como instrumento de mobilização doméstica.

 

Trump já demonstrou inclinação para retórica de confronto - comercial, diplomático e, por vezes, institucional. Seus críticos veem nisso um flerte com o autoritarismo; seus apoiadores enxergam firmeza estratégica. A verdade provavelmente está em uma zona mais complexa: trata-se de uma estratégia política que pode gerar efeitos imprevisíveis se combinada com crises econômicas ou choques internacionais.

 

O ponto cego de Washington: a economia

 

Enquanto o debate político se inflama, o terreno econômico se move. Os Estados Unidos ainda desfrutam de vantagens extraordinárias - sobretudo o papel do dólar como principal moeda de reserva global. Porém, sinais de desgaste se acumulam:

  • dívida pública em trajetória elevada;

  • crescente competição industrial asiática;

  • iniciativas de comércio fora do dólar;

  • avanço da República Popular da China em infraestrutura e cadeias produtivas.

 

Nenhum desses fatores, isoladamente, derruba a hegemonia americana. Mas o conjunto deles deveria acender alertas mais altos do que se vê hoje em Washington.

 

O risco real: não é um golpe clássico

 

É preciso evitar alarmismos simplistas. Os Estados Unidos possuem instituições robustas, Judiciário independente e uma sociedade civil ativa. Um colapso democrático súbito continua sendo improvável no curto prazo.

 

O risco mais plausível - e mais perigoso - é outro: erosão gradual combinada com estresse econômico. Nesse cenário, o que pode ocorrer é:

  • endurecimento progressivo do discurso político;

  • normalização de medidas excepcionais;

  • maior uso de instrumentos executivos em disputas internas;

  • crescimento da desconfiança institucional.

 

Nada disso acontece de uma vez. Acontece aos poucos - e justamente por isso costuma ser subestimado.

 

O erro estratégico das elites americanas

 

Talvez o aspecto mais preocupante seja a persistência de uma crença implícita: a de que a posição global dos Estados Unidos é estruturalmente garantida. Mas, de fato, não é.

 

Grandes potências raramente percebem o início de suas pressões sistêmicas. Continuam projetando força enquanto suas bases econômicas se ajustam lentamente - até que o custo do ajuste se torna politicamente explosivo.

 

Se Washington continuar tratando desafios econômicos estruturais como ruído passageiro, qualquer governo - seja de Trump ou de seus adversários - herdará tensões cada vez mais difíceis de administrar.

 

Do ponto de vista de tudo que leio através de analistas imparciais, o mundo não está às portas de um colapso americano. Mas também não está mais vivendo a era de hegemonia incontestável dos Estados Unidos. Ignorar essa transição seria um erro histórico.

 

A questão decisiva não é se Trump quer ser forte. É se o sistema americano conseguirá permanecer estável enquanto as bases econômicas que sustentaram sua primazia global passam, silenciosamente, por transformação.

 

A história mostra que grandes crises raramente começam com um estrondo. Elas começam quando sociedades influentes demais passam tempo demais acreditando que são imunes às leis da mudança.

 

Os analistas mais ousados entre os que leio, são unanimes em afirmar que, se Donald Trump continuar endurecendo e a economia não reagir adequadamente a favor da plutocracia, o 45º presidente não governará até o fim do seu mandato.

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