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Protesto ou ignorância?

  • Batatais News
  • há 23 horas
  • 8 min de leitura

Quando o eleitor usa a urna para protestar e acaba entregando o poder a quem não deveria sequer administrar um carrinho de supermercado.


 

Existe uma pergunta que a democracia brasileira evita fazer porque a resposta pode ser bastante constrangedora: Quando um eleitor vota em um candidato completamente despreparado, ele está protestando contra o sistema ou apenas revelando o tamanho da sua própria ignorância política?

 

É uma pergunta incômoda. E justamente por isso merece ser feita.

 

Nas eleições, o eleitor recebe uma ferramenta extraordinariamente poderosa: o voto. Com alguns toques na urna eletrônica, ele pode escolher quem fará leis, fiscalizará o dinheiro público, participará das decisões que afetam milhões de pessoas e falará, em seu nome, dentro das instituições da República.

 

Parece simples. E é.

 

O problema começa quando alguém confunde liberdade de escolha com licença para escolher qualquer coisa sem pensar.

 

Aí a democracia vira uma espécie de experiência científica: coloca-se qualquer personagem dentro da urna, aperta-se CONFIRMA e depois passa-se quatro anos tentando descobrir por que deu errado.

 

O voto de protesto

 

Há uma justificativa que aparece com frequência: “Votei nele só para protestar.”

Muito bem. Mas protestar contra quem? Contra o quê?

 

Contra o sistema? Contra os políticos tradicionais? Contra os partidos? Contra a corrupção? Contra a velha política? Contra os privilégios? Contra a própria classe política?

 

Tudo isso pode ser legítimo. O problema é que existe uma diferença monumental entre protestar contra alguma coisa e entregar um mandato a alguém que não possui condições de exercê-lo.

 

Imagine um cidadão indignado porque o mecânico de seu carro fez um serviço desastroso. Na oficina seguinte, ele encontra alguém que nunca abriu um motor na vida. E decide: -  Vou colocar esse aí para consertar meu carro. É meu protesto!

 

O carro provavelmente não entenderá a filosofia do protesto. O motor vai fundir do mesmo jeito.

 

Com a República ocorre algo parecido.

 

O eleitor pode até querer dar um recado. Mas o Parlamento não é caixa de comentários de rede social. O orçamento público não é botão de “curtir”. Uma lei mal elaborada não pode ser apagada com um simples “desfazer”.

 

O protesto eleitoral tem consequências reais. A urna não tem botão “era só brincadeira”


 

Talvez esse seja um dos grandes problemas da política contemporânea: a transformação da eleição em espetáculo.

 

O candidato faz uma declaração absurda. Viraliza. Vira meme. Ganha seguidores. Aparece em vídeos.

 

Faz uma provocação. Consegue milhões de visualizações. E alguém conclui: “Esse sujeito fala o que eu penso. Vou votar nele.”

 

Pronto. Nasce mais um parlamentar.

 

Só que existe uma pequena diferença entre ganhar uma discussão no WhatsApp e discutir uma lei no plenário.

 

No WhatsApp, você pode mandar uma figurinha. No Parlamento, você pode votar uma lei que afetará milhares ou milhões de pessoas.

 

No WhatsApp, se falar bobagem, o grupo pode silenciar você. No Parlamento, infelizmente, ninguém tem esse botão. E a bobagem pode virar legislação.

 

O eleitor também precisa passar por uma eleição

 

Talvez esteja na hora de admitir uma coisa que não agrada nem ao eleitor nem ao político: O candidato precisa ser avaliado, mas o eleitor também.

 

Não juridicamente. Não eleitoralmente. Mas, Moralmente. Intelectualmente. Politicamente.

 

Porque toda eleição é uma espécie de exame coletivo. E o resultado revela não apenas quem ganhou, mas também o que uma parcela da sociedade valoriza.

  • Se elegemos alguém porque é famoso, talvez estejamos valorizando a fama.

  • Se elegemos porque faz vídeos engraçados, talvez estejamos valorizando o entretenimento.

  • Se elegemos porque agride seus adversários, talvez estejamos premiando a agressividade.

  • Se elegemos porque promete vantagens pessoais, talvez estejamos confessando que queremos benefícios particulares antes do interesse coletivo.

  • E se elegemos alguém completamente despreparado simplesmente porque queríamos “zoar” o sistema, talvez a piada tenha sido feita às nossas próprias custas.

 

Sócrates talvez tivesse um problema com a urna

 

Sócrates, o velho filósofo ateniense, passou a vida fazendo perguntas. E talvez fosse justamente isso que estivesse faltando ao eleitor moderno. Perguntar.

  • Quem é esse candidato?

  • O que ele fez antes da política?

  • Conhece a função para a qual está se candidatando?

  • Tem histórico de honestidade?

  • Sabe alguma coisa sobre legislação?

  • Conhece orçamento público?

  • Tem equilíbrio?

  • Tem caráter?

  • Tem compromisso com aquilo que promete?

  • Ou simplesmente descobriu que falar barbaridades diante de uma câmera rende votos?

 

Sócrates defendia a importância de reconhecer a própria ignorância. Talvez essa seja uma das maiores virtudes que poderiam voltar à política brasileira: “Eu não sei.”

 

Porque quem sabe que não sabe pode estudar. O perigoso é aquele que não sabe, não quer aprender e ainda acredita que sabe tudo.

 

Esse, colocado dentro de uma Casa Legislativa, pode transformar a ignorância pessoal em problema coletivo.

 

E vem Aristófanes para completar a tragédia

 

O dramaturgo grego Aristófanes utilizava o humor para ridicularizar políticos, instituições e costumes de sua época.

 

Se estivesse vivo hoje, provavelmente teria material suficiente para uma enciclopédia. Talvez nem precisasse inventar personagens. Bastaria acompanhar uma campanha eleitoral.

 

A política brasileira oferece ao humorista uma matéria-prima praticamente inesgotável. Mas existe uma diferença entre rir da política e votar como se a política fosse uma piada.

  • O primeiro pode ser saudável.

  • O segundo pode custar caro. Muito caro!

 

O candidato absurdo é eleito por quem?


 

Aqui chegamos à pergunta que talvez ninguém queira responder: Quem coloca o candidato absurdo dentro do Parlamento?

  • Ele sozinho? Não.

  • O partido? Em parte.

  • O sistema eleitoral? Também.

  • As redes sociais? Frequentemente.

 

Mas existe um personagem que não pode ser retirado da fotografia: o eleitor.

 

O candidato não se elege sozinho. Alguém apertou o número dele. Milhares fizeram o mesmo. Centenas de milhares, em determinados casos.

 

E depois da posse aparece aquela velha pergunta brasileira: “Como foi que elegeram esse sujeito?” E não aparece ninguém afirmando o voto no sujeito.

 

Mas, com certeza, foram os eleitores. Nós, os eleitores.

 

Não adianta quatro meses depois da eleição descobrir que o parlamentar é despreparado. A descoberta deveria acontecer antes do voto.

 

A desculpa do “eu não sabia”

 

Essa talvez seja uma das frases mais perigosas da democracia: “Eu não sabia.”

  • Não sabia quem era?

  • Não pesquisou?

  • Não leu?

  • Não acompanhou?

  • Não perguntou?

  • Não comparou?

  • Não verificou?

  • Então por que votou?

 

É evidente que ninguém consegue conhecer profundamente todos os candidatos de uma eleição. Mas existe uma diferença entre não conhecer todos e votar em alguém sem querer conhecer ninguém.

 

A democracia exige liberdade. Mas liberdade sem responsabilidade pode virar irresponsabilidade institucionalizada. E a urna não corrige isso.

 

O eleitor não pode terceirizar a própria consciência

 

Existe uma mania brasileira de responsabilizar sempre o outro.

  • O político é corrupto.

  • O partido é ruim.

  • O Congresso é péssimo.

  • O prefeito não presta.

  • O deputado decepcionou.

  • O senador não cumpriu.

  • O vereador não trabalha.

 

Mas raramente ouvimos: “Eu escolhi mal.” Essa frase parece ser proibida. Preferimos culpar o sistema. É mais confortável.

 

Porque assumir que escolhemos mal significa reconhecer que talvez tenhamos votado pela emoção, pela paixão política, pela amizade, pela promessa, pelo dinheiro, pelo favor, pela fama ou simplesmente pela vontade de causar confusão.

 

É muito mais fácil dizer que “a política não presta” do que admitir que ajudamos a colocá-la exatamente onde está. Protestar é legítimo. Destruir é outra coisa.

 

Ninguém está dizendo que o eleitor precisa votar sempre nos mesmos candidatos. Muito menos que deve aceitar passivamente a velha política. Pelo contrário. O voto de protesto pode ser legítimo e até necessário.

 

A democracia precisa de renovação. Precisa de novos nomes. Precisa de novas ideias. Precisa de gente que desafie estruturas antigas. Precisa de cidadãos que não aceitem corrupção, privilégios e incompetência.

 

Mas protestar não significa desligar o cérebro. Protestar significa escolher conscientemente uma alternativa.

 

Há uma diferença entre dizer: “Não quero mais esses políticos.” E dizer: “Então vou eleger qualquer um.”

 

A primeira frase pode ser cidadania. A segunda pode ser apenas irresponsabilidade com discurso revolucionário.

 

Quando a piada vira salário

 

Durante a campanha, tudo parece engraçado.

  • O candidato irreverente.

  • O vídeo engraçado.

  • O apelido.

  • A provocação.

  • A frase de efeito.

  • O meme.

  • A promessa impossível.

  • A dancinha.

  • A declaração absurda.

  • Tudo rende curtidas.

 

Mas chega o dia seguinte à eleição.

  • A cadeira está lá.

  • O gabinete está lá.

  • Os assessores estão lá.

  • O salário está lá.

  • As verbas estão lá.

  • O poder está lá.

  • E o contribuinte também está lá. Pagando...

 

Aí descobrimos uma coisa fascinante: a política pode até começar como entretenimento, mas a conta termina em dinheiro público. E dinheiro público tem uma característica curiosa: não aceita risadas como forma de pagamento.

 

A democracia também pode produzir absurdos

 

É preciso compreender uma verdade desconfortável: uma decisão pode ser democrática e, ainda assim, ser uma péssima decisão.

 

A democracia garante o direito de escolher. Ela não garante que escolheremos bem. Esse é o paradoxo da liberdade. A sociedade pode escolher sabiamente. Mas também pode escolher mal.

  • Pode escolher por paixão.

  • Pode escolher por vingança.

  • Pode escolher por interesse.

  • Pode escolher por ignorância.

  • Pode escolher por protesto.

 

E pode até escolher alguém simplesmente porque achou engraçado. O voto continua sendo legítimo. Mas o resultado pode ser desastroso.

 

E se a ignorância estiver dos dois lados?

 

Aqui chegamos ao título: Protesto ou Ignorância?

  • Talvez seja protesto.

  • Talvez seja ignorância.

 

E existe ainda uma terceira possibilidade, muito mais perigosa: uma mistura dos dois.

 

O eleitor indignado com a política tradicional decide votar em alguém completamente despreparado. Acredita que está destruindo o sistema. Mas, na realidade, está apenas trocando um problema conhecido por outro que ainda não conhece.

 

É como colocar fogo na própria casa para protestar contra o preço do aluguel.

  • Pode até ser uma manifestação contundente.

  • Mas continua sendo uma péssima estratégia imobiliária.

 

O voto deveria carregar uma pergunta

 

Antes de apertar o botão CONFIRMA, talvez cada eleitor devesse fazer uma pergunta simples: “Se essa pessoa ganhar, eu aceitaria que ela tomasse decisões importantes em meu nome?”

  • Não para fazer graça.

  • Não para provocar o adversário.

  • Não para agradar o amigo.

  • Não para seguir o influenciador.

  • Não para retribuir um favor.

  • Não porque todo mundo do meu grupo vai votar.

 

Mas porque realmente acredito que aquela pessoa tem condições de exercer o mandato.

 

Se a resposta for “não”, talvez seja melhor procurar outro nome. Porque quatro anos são longos demais para transformar arrependimento em rotina.

 

O Parlamento é o espelho

 

Existe uma velha máxima segundo a qual cada povo tem os governantes que merece. A frase é frequentemente atribuída a diferentes autores e aparece em várias formulações ao longo da história.

Talvez seja mais justo dizer: cada sociedade, em alguma medida, produz os representantes que suas escolhas eleitorais tornam possíveis.

 

O Parlamento é um espelho.

  • Às vezes mostra competência.

  • Às vezes mostra honestidade.

  • Às vezes mostra mediocridade.

  • Às vezes mostra oportunismo.

 

E, em certas ocasiões, mostra algo ainda mais desconfortável: mostra aquilo que nós mesmos valorizamos.

  • Se o eleitor premia a ignorância, a ignorância ganha.

  • Se premia a mentira, a mentira aprende o caminho da urna.

  • Se premia o espetáculo, o espetáculo entra no plenário.

  • Se premia o caráter, talvez o caráter volte a ser uma virtude política.

 

No fim, a piada é nossa:

  • Podemos rir dos candidatos.

  • Podemos rir dos partidos.

  • Podemos rir dos discursos.

  • Podemos rir dos nomes de urna.

  • Podemos produzir memes.

  • Podemos fazer caricaturas.

  • Podemos dizer que a política brasileira parece um circo.

 

Mas existe um momento em que precisamos parar de rir. É quando percebemos que somos nós que compramos o ingresso, escolhemos os artistas e ainda pagamos a conta do espetáculo.

 

A urna não é brinquedo. O mandato não é prêmio. O Parlamento não é palco. E o eleitor não pode transformar o voto em arma de vingança e depois reclamar quando a bala ricochetear.

 

Talvez o maior protesto que um cidadão possa fazer não seja votar no candidato mais barulhento. Talvez seja votar melhor.

 

Porque escolher alguém competente, honesto, preparado e comprometido com o interesse público pode ser uma forma muito mais poderosa de protestar contra a velha política do que eleger um personagem simplesmente porque ele sabe fazer barulho.

 

No final, a pergunta continuará diante de nós: PROTESTO OU IGNORÂNCIA?

  • Se for protesto, que seja consciente.

  • Se for indignação, que venha acompanhada de discernimento.

  • Se for renovação, que venha acompanhada de responsabilidade.

 

Porque, se o eleitor entregar o poder a alguém que não tem condições de exercê-lo apenas para “dar uma lição” na política, talvez descubra tarde demais que a lição foi dada... - mas quem ficou de recuperação foi o país.

 

E aí não haverá meme que resolva. Nem desculpa. Nem “eu não sabia”. Nem “era só protesto”.

 

A democracia nos dá o direito de escolher. O mínimo que ela espera de nós é que usemos esse direito pensando.


 

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