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Sinais de alerta em tempos de polarização

  • Foto do escritor: Carlos Moraes
    Carlos Moraes
  • 23 de fev.
  • 4 min de leitura

A história não fornece moldes prontos, mas oferece espelhos incômodos. Quando sociedades democráticas entram em ciclos de polarização intensa, cresce a tentação de normalizar discursos e práticas que, em tempos mais serenos, seriam prontamente rejeitados. O que hoje se observa nos Estados Unidos - especialmente no ambiente político moldado pelo segundo mandato de Donald Trump - deve ser lido menos como uma repetição de 1933 e mais como um sinal de alerta estrutural para democracias em todo o mundo.

 

O ponto central não é afirmar que os EUA caminham para um regime análogo ao de Adolf Hitler. As diferenças institucionais, jurídicas e históricas são profundas. O que preocupa analistas e observadores atentos é outra coisa: o padrão de tensão crescente entre nacionalismo mobilizador, uso intensivo do aparato estatal e radicalização do debate público.

 

Esse padrão, aliás, já ultrapassou as fronteiras americanas.

 

A exportação da polarização

 

O fenômeno político associado a Trump - frequentemente chamado de trumpismo - não ficou restrito aos Estados Unidos. Sua gramática política, baseada em forte retórica identitária, desconfiança institucional e mobilização emocional permanente, encontrou ecos em vários países.

 

No Brasil, essa dinâmica se manifestou no bolsonarismo ligado a Jair Bolsonaro. Guardadas as diferenças óbvias de contexto, observa-se uma transposição de estilo político:

  • retórica de confronto permanente;

  • questionamento recorrente de instituições;

  • centralidade de temas de segurança e ordem;

  • construção de identidades políticas fortemente polarizadas.

 

Não se trata de equivalência histórica automática - e seria desonesto sugerir isso - mas de reconhecer que modelos de mobilização política hoje, viajam rapidamente no mundo digitalizado.

 

O ICE e o debate sobre o uso do aparato estatal

 

Nos EUA, o protagonismo do ICE (Immigration and Customs Enforcement), ou Serviço de Imigração e Alfândega, dentro da agenda migratória endurecida tornou-se um dos focos de controvérsia. A agência continua sendo, formalmente, um órgão legal do Estado, sujeito a controles judiciais e legislativos. Ainda assim, sua atuação intensificada em um ambiente de forte retórica nacionalista alimenta preocupações legítimas entre defensores de direitos civis.

 

A controvérsia simbólica envolvendo a imagem pública de lideranças do órgão - como Gregory Bovino - mostra como, em períodos polarizados, até elementos estéticos passam a ser interpretados politicamente. Isso por si só não prova intenções autoritárias, mas revela um ambiente de confiança institucional fragilizada.

 

E confiança, quando se rompe, raramente se recompõe rapidamente.

 

A lição permanente de 1933

 

Entre 1933 e 1945, a Alemanha viveu a demonstração mais dramática de como democracias podem ser corroídas por dentro. O elemento mais perturbador daquele período não foi apenas a brutalidade do regime nazista, mas a sucessão de erros de cálculo que permitiram sua ascensão.

 

Elites conservadoras acreditaram que poderiam controlar Hitler.

  • Instituições subestimaram a velocidade da radicalização.

  • Partidos democráticos fragmentaram-se quando mais precisavam de unidade.

  • Setores da sociedade aceitaram a promessa de ordem em troca de liberdades.

 

Nada disso se repete hoje de forma mecânica nos Estados Unidos ou no Brasil. Mas o padrão psicológico e político - a normalização gradual de tensões - permanece um alerta universal.

 

Capitalismo especulativo e o terreno fértil do radicalismo

 

Há ainda um fator estrutural que merece atenção e que transcende governos específicos: o modelo contemporâneo de capitalismo altamente financeirizado e meramente especulativo que visa apenas acumular dinheiro r poder.

 

Com isso, na maioria das democracias, observa-se:

  • concentração crescente de riqueza;

  • estagnação ou queda relativa da renda do trabalho;

  • sensação difusa de perda de controle social;

  • aumento da ansiedade econômica das classes médias e populares.

 

Alguns teóricos têm chamado esse arranjo de capitalismo de controle, no qual tecnologia, dados e finanças se combinam para produzir alta acumulação com baixa distribuição.

 

Historicamente, momentos de forte concentração econômica combinados com insegurança social criaram terreno fértil para movimentos autoritários - de modo especial no espectro da direita. O fascismo europeu do século XX, por exemplo, não nasceu no vácuo. Ele floresceu em meio a crises econômicas profundas e sensação coletiva de humilhação e perda.

 

Isso não significa que o presente reproduzirá o passado. Significa apenas que as condições que alimentam radicalismos continuam existindo sob novas formas.


Os freios democráticos ainda importam

 

Apesar das tensões, é fundamental reconhecer: as democracias contemporâneas - especialmente a estadunidense - ainda dispõem de mecanismos robustos de contenção.

 

Nos EUA:

  • o Judiciário tem barrado, ainda que minimamente, medidas executivas;

  • o Congresso mantém poder orçamentário, mas quando um lado tem maioria nas casas de lei e está no governo, é perigoso;

  • a 22ª Emenda limita mandatos presidenciais;

  • estados possuem autonomia federativa relevante e governadores podem reagir;

  • imprensa, ainda oferece equilíbrio e a sociedade civil segue ativa.

 

No Brasil, as instituições têm demonstrado capacidade de reação em momentos críticos, como demonstrado recentemente, na tentativa de golpe por parte da direita radical.

 

Esses freios fazem diferença real. E precisam ser preservados.

 

Vigilância sem histeria, prudência sem ingenuidade

 

O maior erro possível diante do cenário atual seria cair em um dos dois extremos igualmente perigosos:

  • alarmismo histórico simplista, que vê 1933 em todo lugar;

  • complacência confortável, que presume que instituições sempre resistirão automaticamente.

 

A Alemanha entre 1933 e 1945 permanece como advertência permanente não porque a história vá se repetir da mesma forma, mas porque ela revela como sociedades modernas podem escorregar gradualmente rumo à erosão democrática quando polarização política, ansiedade econômica e liderança populista se combinam.

 

O que se observa hoje, nos Estados Unidos, no Brasil e em outras democracias tensionadas, pode estar à beira do abismo a qualquer momento. Os sinais de alerta são visíveis.

 

Ignorá-los seria imprudência. Exagerá-los seria irresponsabilidade.

 

Entre esses dois riscos, a tarefa das sociedades livres continua sendo a mesma: defender instituições, reduzir desigualdades e recusar todo tipo de radicalismo político que transforme adversários em inimigos existenciais.

 

A democracia raramente morre de uma vez. Ela se desgasta quando a vigilância cívica adormece.

 

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