O POVO BRASILEIRO ASSUMIU O COMANDO E REELEGEU LULA
A vitória que nasceu nas ruas, nas universidades, nos locais de trabalho, nas redes e na imprensa alternativa e independente. A soberania nacional entrou na urna, o Brasil disse não à extrema direita e aos que pretendiam negociar o futuro da Pátria.

Há vitórias eleitorais que pertencem aos candidatos, às suas equipes e aos partidos que os sustentam. Há outras, porém, que ultrapassam os limites de uma campanha convencional e se transformam em acontecimentos históricos, porque mobilizam forças que não cabem nos organogramas partidários. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026, tem, na interpretação deste articulista, essa dimensão: a de uma vitória na qual o povo brasileiro assumiu o protagonismo, saiu da defensiva e decidiu que o destino do País não seria entregue à extrema direita bolsonarista.
O resultado das urnas confirmou a reeleição de Lula com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. Foram 4.430.191 votos de diferença em uma das disputas mais acirradas da história recente brasileira.
Mas os números, embora expressem a dimensão da vitória, não contam sozinhos toda a história. Para compreender o que aconteceu, é preciso olhar além dos palanques, dos programas eleitorais e das estruturas oficiais de campanha. É necessário observar a movimentação de milhares de brasileiros que, diante do risco político que enxergavam, decidiram não permanecer espectadores.
Universitários e estudantes secundaristas, trabalhadores, intelectuais, artistas, jornalistas independentes, comunicadores populares e cidadãos sem filiação partidária participaram de uma mobilização que ganhou força nas ruas e nas redes sociais. Gente que não esperou necessariamente uma convocação das direções partidárias, não pediu autorização aos comandos eleitorais e não se subordinou integralmente às estratégias tradicionais de comunicação.
Cada conversa, cada publicação, cada vídeo, cada manifestação e cada debate familiar ou profissional tornou-se parte de uma disputa que ultrapassava a escolha entre dois candidatos.
Na avaliação de parcelas expressivas desse movimento, estava em jogo a própria orientação política do Brasil: um País capaz de decidir soberanamente seus caminhos ou uma nação submetida aos interesses de grupos econômicos e forças políticas que pretendiam conduzi-la para outro rumo.
O povo não foi apenas chamado a votar. Uma parcela do povo decidiu participar ativamente da disputa pelo futuro nacional.
QUANDO A CAMPANHA OFICIAL JÁ NÃO ERA SUFICIENTE
O primeiro turno havia deixado um sinal de alerta para os setores que desejavam a continuidade do governo Lula. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A diferença de 1,87 ponto percentual, equivalente a pouco mais de dois milhões de votos, colocou o presidente diante de uma disputa decisiva.

FOTO DA IMAGEM NA TV
A partir dali, a eleição ganhou outra dimensão.
O segundo turno deixou de ser apenas uma batalha entre estruturas partidárias e passou a envolver uma mobilização social mais ampla. A comunicação política tradicional dividiu espaço com iniciativas espontâneas, conteúdos produzidos por cidadãos comuns, jornalistas independentes e influenciadores, além de manifestações presenciais que deram visibilidade à disputa.
Não se deve apagar o trabalho das organizações partidárias, dos militantes históricos ou dos profissionais da campanha oficial. Eles tiveram sua participação. O que merece destaque, entretanto, é que a reeleição não pode ser explicada exclusivamente pelas decisões tomadas nos gabinetes eleitorais.
Houve uma dimensão popular que precisa ser reconhecida.
Pessoas que talvez não participassem regularmente da vida partidária sentiram-se chamadas a defender uma escolha política. Jovens que cresceram em um ambiente de intensa polarização passaram a discutir democracia, direitos sociais e soberania. Trabalhadores perceberam que as decisões sobre emprego, salários, previdência e proteção social não são assuntos distantes de sua vida cotidiana.
A mobilização adquiriu, assim, um significado que ultrapassava a propaganda eleitoral: era também uma disputa sobre quem deveria ter voz na definição dos rumos do País.
A SOBERANIA NÃO ESTÁ À VENDA
O ponto central dessa mobilização, na interpretação aqui defendida, foi a soberania nacional.
O Brasil não é uma propriedade privada, uma filial de conglomerados financeiros nem uma peça descartável no tabuleiro das grandes potências. Sua população, seu território, suas riquezas naturais, sua capacidade produtiva e seu patrimônio estratégico não podem ser tratados como mercadorias disponíveis à negociação de interesses particulares.
É nesse contexto que se insere a crítica à extrema direita bolsonarista e às suas afinidades políticas e ideológicas com setores ultraconservadores internacionais, inclusive aqueles associados ao presidente norte-americano Donald Trump.
A questão não é impedir que o Brasil mantenha relações comerciais, diplomáticas ou estratégicas com os Estados Unidos ou qualquer outra nação. Uma política externa soberana, altiva e ativa, tem sido a marca de todos os governos do presidente Lula. Nunca houve isolamento e nem entrega da nação. Lula exige uma diplomacia respeitosa com todas as nações e governos. Exige, justamente, a capacidade de negociar sem submissão, cooperar sem dependência política e estabelecer parcerias sem renunciar ao interesse nacional.
O problema começa quando a aproximação com uma potência estrangeira passa a ser apresentada como alternativa à autonomia brasileira; quando interesses econômicos externos recebem prioridade sobre as necessidades da população; ou quando setores nacionais parecem dispostos a aceitar constrangimentos internacionais em troca de vantagens políticas internas.
A soberania não se mede pela retórica patriótica, pelo tamanho de uma bandeira ou pela quantidade de vezes que alguém pronuncia a palavra Brasil. Mede-se pela capacidade efetiva de tomar decisões sem tutela estrangeira.
É por isso que a defesa das riquezas naturais brasileiras ocupa lugar central nessa discussão. Petróleo, minerais estratégicos, terras raras, água, biodiversidade, energia e capacidade industrial e tecnológica constituem patrimônio de enorme relevância para as gerações presentes e futuras. Sua exploração precisa observar a legislação, a proteção ambiental, os interesses das comunidades envolvidas e, sobretudo, a perspectiva de desenvolvimento nacional.
Entregar o controle de setores estratégicos sem uma avaliação rigorosa do interesse público não é modernização automática. Tampouco é patriótico transferir patrimônio nacional sem discutir quem ganha, quem perde e quais serão as consequências para o País.
A expressão bíblica do prato de lentilhas (Gênesis 25.29-34), pode ser empregada aqui como metáfora política, traduzindo o perigo de trocar um patrimônio duradouro por vantagens imediatas. Uma nação pode perder parte de sua autonomia não apenas pela força das armas, mas também por decisões econômicas, dependências tecnológicas e acordos que reduzam progressivamente sua capacidade de escolha.
O Brasil não pode vender o futuro para comprar a conveniência do presente.
A FRENTE POPULAR QUE NÃO CABIA NOS PARTIDOS

PRINT DA TV
A mobilização que ganhou força no segundo turno não deve ser confundida com uma adesão unânime a Lula, tampouco com a dissolução das diferenças existentes entre os setores democráticos brasileiros.
Muitos dos que votaram no presidente reeleito podem ter profundas divergências com o PT, com algumas política do governo ou com decisões específicas de sua administração. Outros fizeram uma escolha essencialmente defensiva, por considerarem o projeto adversário mais perigoso para a democracia, os direitos sociais ou a autonomia nacional.
Essa diversidade não diminui o significado político do resultado. Ao contrário, ajuda a explicá-lo.
Em determinados momentos da história, pessoas com projetos distintos reconhecem a existência de um risco comum e estabelecem convergências limitadas, sem abandonar suas identidades. Foi sob essa perspectiva que a defesa da democracia e da soberania pôde aproximar trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais, comunicadores independentes e militantes de diferentes tradições políticas.
A imprensa alternativa e independente teve, nesse cenário, uma função particularmente importante. Em um ambiente de comunicação dominado por grandes conglomerados e plataformas digitais controlados pelas elites financeiras, veículos menores mantidos pelo povo, jornalistas autônomos e produtores de conteúdo buscaram abrir espaços para interpretações que nem sempre encontram a mesma visibilidade nos meios corporativos que são, por natureza, tendenciosos, manipulados e manipuladores.
Isso não significa que toda a imprensa tradicional tenha atuado de maneira uniforme, nem que todo veículo independente tenha sido imparcial ou correto. Significa reconhecer que a pluralidade da comunicação é indispensável para que a sociedade possa confrontar versões, questionar interesses e formar sua própria compreensão dos acontecimentos.
Também é necessário discutir o poder das grandes plataformas tecnológicas, entre elas a Meta, sobre a circulação de informações, a visibilidade de conteúdos e a formação do debate público. Essas empresas não podem existir sem as devidas regulamentações. As evidências de manipulação são reais e as denúncias de funcionários apontam para ações antidemocráticas. O governo deverá agora, assumir uma postura de real discussão para que sejam aprovadas medidas que gerem transparência e respeito à liberdade de expressão.
O que a reeleição de Lula demonstrou foi que a disputa política contemporânea não acontece apenas nos espaços institucionais. A sociedade também produz comunicação, organiza mobilizações e interfere nos rumos do País por meios que escapam ao controle exclusivo das estruturas tradicionais.
A ELITE FINANCEIRA E O PAÍS REAL
A vitória de Lula também recoloca no centro do debate a relação entre o poder financeiro e a democracia.
A Faria Lima, expressão frequentemente utilizada para representar o mercado financeiro brasileiro, não é um bloco homogêneo, assim como os trabalhadores não pensam todos da mesma maneira. O problema não está na existência do mercado financeiro, na atividade empresarial ou na busca legítima por investimentos.
A questão é outra: até que ponto as expectativas dos grandes detentores de capital devem condicionar as escolhas de um governo eleito por milhões de brasileiros?
Uma democracia não pode aceitar que as necessidades da população sejam permanentemente subordinadas às exigências de rentabilidade de grupos economicamente poderosos. A estabilidade monetária importa, mas não substitui a justiça social. A responsabilidade fiscal é necessária, mas não pode servir de justificativa automática para abandonar investimentos essenciais. O crescimento econômico tem valor, mas precisa produzir oportunidades, trabalho digno e melhoria concreta das condições de vida.
O Brasil real não cabe nos relatórios dos bancos, nas oscilações diárias da Bolsa ou nas projeções dos analistas financeiros. Ele está nas fábricas, nas escolas, nos hospitais, nas universidades, nos pequenos negócios, nos campos, nas periferias e nas famílias que precisam equilibrar o orçamento para chegar ao fim do mês.
Foi nesse Brasil que a disputa presidencial encontrou parte decisiva de seu significado social.
A reeleição, entretanto, não representa um cheque em branco. O voto popular confere legitimidade para governar, não autorização para ignorar os compromissos assumidos. O governo reeleito terá de demonstrar que compreendeu as razões pelas quais milhões de brasileiros o escolheram e que é capaz de transformar essa confiança em políticas públicas efetivas.
A vitória eleitoral abre uma oportunidade. Não garante, por si só, o sucesso da administração.
TRABALHO, DIREITOS SOCIAIS E DIGNIDADE
Outro componente importante da disputa foi a defesa dos direitos trabalhistas e das políticas públicas de caráter social construídas ou ampliadas ao longo dos governos de Lula e Dilma Rousseff.
Programas de transferência de renda, ampliação do acesso ao ensino superior, valorização do salário mínimo, políticas de inclusão e iniciativas de combate à fome tornaram-se referências centrais no debate sobre o papel do Estado brasileiro.
Essas políticas podem e devem ser avaliadas com rigor quanto a seus resultados, custos, limitações e sustentabilidade. Mas não podem ser descartadas simplesmente porque contrariam interesses de determinados grupos econômicos ou porque se opõem a uma visão de sociedade que deposita no mercado a solução para quase todos os problemas.
A liberdade econômica não pode significar liberdade para explorar indefinidamente o trabalho alheio. A competitividade não deve servir de pretexto para transformar o trabalhador em uma peça descartável. E o equilíbrio das contas públicas não pode ser convertido em dogma que ignore a fome, a pobreza, a desigualdade e a precariedade dos serviços essenciais.
A democracia perde substância quando o cidadão possui o direito formal de votar, mas não encontra condições materiais mínimas para exercer plenamente sua liberdade.
Por isso, a defesa da soberania precisa caminhar ao lado da defesa dos direitos sociais. Um País que controla seus recursos, mas condena parte de sua população à miséria, não realiza plenamente suas possibilidades nacionais. Da mesma forma, políticas sociais duradouras dependem de uma economia capaz de gerar riqueza, emprego, produtividade e receitas públicas.
O desafio é construir um projeto de desenvolvimento que concilie essas dimensões, sem entregar as decisões fundamentais do Estado nem aos interesses privados nem à improvisação governamental.
A RELIGIÃO NÃO PODE SER INSTRUMENTO DE DOMINAÇÃO POLÍTICA
A eleição também evidenciou a importância da relação entre religião e política no Brasil.
A participação de cristãos na vida pública é legítima e faz parte da liberdade democrática. Cidadãos religiosos têm o mesmo direito de expressar suas convicções, organizar-se, votar e defender propostas que considerem compatíveis com seus valores.
O problema surge quando a fé é instrumentalizada como mecanismo de intimidação eleitoral, quando adversários são apresentados como inimigos de Deus ou quando a autoridade religiosa é utilizada para impedir que os fiéis examinem criticamente as propostas dos candidatos.
A consciência cristã não deve ser transformada em propriedade de partido algum.
A liberdade religiosa, a responsabilidade individual e a separação entre Igreja e Estado são princípios fundamentais de uma sociedade democrática. O Estado não deve impor uma religião, assim como organizações religiosas não devem reivindicar o monopólio da representação política de toda a população.
É possível defender convicções morais, debater políticas públicas e participar das eleições sem converter o púlpito em extensão de um comitê eleitoral.
A democracia exige cidadãos livres para decidir, inclusive quando suas decisões divergem das preferências de seus líderes religiosos.
LULA E A QUARTA VITÓRIA NAS URNAS
A trajetória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva ajuda a dimensionar o significado histórico da reeleição.

IMAGEM GERADA POR IA
Nascido em 27 de outubro de 1945, em Caetés, então distrito de Garanhuns, Pernambuco, Lula construiu sua projeção nacional a partir do movimento sindical dos metalúrgicos do ABC paulista.
Entre 1975 e 1981, presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e tornou-se uma das principais lideranças das greves operárias de 1978 a 1980, durante a ditadura militar. Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, organização que se tornaria uma das forças centrais da política brasileira.
Sua primeira candidatura presidencial ocorreu em 1989, quando foi derrotado por Fernando Collor de Mello. Voltou a disputar a Presidência em 1994 e 1998, perdendo nas duas ocasiões para Fernando Henrique Cardoso.
A vitória veio em 2002, quando derrotou José Serra no segundo turno. Em 2006, conquistou a reeleição ao vencer Geraldo Alckmin, então adversário e agora seu companheiro de chapa em outra etapa da história política brasileira.
Após deixar a Presidência em 2010, Lula permaneceu como uma das principais lideranças nacionais. Em 2018, sua prisão e a impossibilidade de disputar aquela eleição marcaram profundamente o cenário político. Em 2022, voltou às urnas e derrotou Jair Bolsonaro, retornando à Presidência em janeiro de 2023.
Agora, em 2026, venceu Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e conquistou uma quarta eleição presidencial.
São sete candidaturas presidenciais efetivamente disputadas: três derrotas e quatro vitórias. O resultado o coloca em uma posição singular na história republicana brasileira. A importância de seu legado democrático, histórico e social será uma marca positiva como poucas na história do Brasil.
A vitória de 25 de outubro também coincide com a véspera de seu aniversário de 81 anos, celebrado em 27 de outubro. Um presente político de dimensões extraordinárias, oferecido por dezenas de milhões de eleitores que decidiram confiar-lhe mais quatro anos de governo.
A posse está prevista para 5 de janeiro de 2027, quando terá início seu quarto mandato presidencial, com término em 31 de dezembro de 2030.
Mas a história não deve ser escrita apenas como uma biografia de Lula. A dimensão mais importante dessa eleição talvez esteja na sociedade que, mais uma vez, demonstrou a capacidade de escolher entre projetos políticos profundamente distintos.
UMA RESPOSTA À MARÉ DA EXTREMA DIREITA
A vitória brasileira também tem repercussões para além das fronteiras nacionais.
Nos últimos anos, movimentos de direita radical e lideranças nacionalistas ganharam espaço em diferentes países, alimentados por insatisfações econômicas, conflitos culturais, descrédito institucional e mudanças na comunicação política.
O Brasil não está isolado desse processo. Tampouco está imune às suas contradições.
Nesse cenário, a recondução de Lula à Presidência representa a continuidade de uma orientação diplomática que privilegia o multilateralismo, a participação brasileira em fóruns internacionais e a ampliação das relações com países de diferentes regiões do mundo.
O BRICS, que reúne importantes economias emergentes e amplia a cooperação entre seus integrantes, constitui uma das plataformas dessa estratégia. Sua relevância está na possibilidade de diversificar parcerias, ampliar alternativas comerciais e financeiras e fortalecer a participação de países emergentes na discussão da ordem internacional.
Isso não significa que o BRICS seja um bloco sem divergências ou que represente uma solução automática para os problemas brasileiros. Significa que o País pode buscar maior margem de manobra internacional ao evitar dependências excessivas e negociar com diferentes parceiros a partir de seus próprios interesses.
A soberania não exige hostilidade aos Estados Unidos, à Europa ou a qualquer outra potência. Exige que o Brasil não se limite a escolher qual potência deverá exercer maior influência sobre seu destino.
A política externa precisa servir ao desenvolvimento nacional, à paz, à cooperação e à defesa dos interesses brasileiros.
Se a reeleição consolidar essa orientação e vier acompanhada de resultados concretos, poderá contribuir para uma presença internacional mais autônoma do Brasil e para o fortalecimento do multilateralismo latino-americano.
A VITÓRIA NÃO PERTENCE EXCLUSIVAMENTE A LULA
Há uma advertência necessária neste momento de celebração.
Se a vitória foi construída, em parte, pela mobilização de cidadãos que ultrapassaram as fronteiras da campanha oficial, o governo não pode agora reivindicar para si o monopólio do resultado nem tratar a participação popular como um recurso descartável após a eleição.
O povo que se mobilizou para defender a soberania continuará tendo o direito de cobrar coerência, transparência e resultados. Os trabalhadores continuarão exigindo melhores condições de vida. Os estudantes continuarão precisando de oportunidades. Os jornalistas independentes continuarão tendo o direito de investigar e criticar. Os movimentos sociais continuarão podendo apresentar reivindicações. E os eleitores que não votaram em Lula continuarão merecendo respeito e representação dentro da ordem constitucional.
A soberania nacional começa com a independência diante de pressões externas, mas também se fortalece com instituições legítimas, participação cidadã, liberdade de imprensa e respeito às regras democráticas.
Nenhum presidente é maior que a República. Nenhum partido é dono do Brasil. Nenhuma vitória eleitoral elimina a obrigação de prestar contas à sociedade.
Se a mobilização popular foi decisiva para o resultado, ela não deve ser dissolvida na rotina dos gabinetes. Precisa continuar existindo como consciência crítica, participação democrática e vigilância sobre o exercício do poder. Precisa, inclusive, exercer pressão nas redes e nas ruas nos quatro anos, para que as medidas governamentais não sejam barradas por um congresso de maioria oposicionista. Todos eles também foram eleitos para representar o povo.
O BRASIL NÃO É PROPRIEDADE DOS VENDILHÕES DA PÁTRIA
A eleição de 2026 deixa uma mensagem que ultrapassa os limites da disputa partidária: a soberania brasileira não pode ser tratada como moeda de troca.
O País não pertence à Faria Lima, aos grandes conglomerados empresariais, às plataformas digitais, aos partidos, aos dirigentes religiosos ou aos governantes estrangeiros. Tampouco pertence exclusivamente ao presidente eleito ou à parcela da população que o apoiou.
O Brasil pertence ao conjunto de seus cidadãos, que, por meio da Constituição, das instituições democráticas e da participação política, têm o direito de decidir os rumos da nação.
A expressão vendilhões da pátria, empregada neste artigo em sentido político, identifica aqueles que, na avaliação crítica aqui apresentada, colocam interesses particulares ou compromissos externos acima da autonomia nacional. Não se trata de atribuir automaticamente essa condição a todos os eleitores da direita, mas de questionar projetos e decisões que possam comprometer a capacidade brasileira de escolher seu próprio caminho.
A extrema direita foi derrotada nas urnas. Mas a defesa da soberania não se encerra com a apuração dos votos. Ela continuará sendo testada nas decisões sobre os recursos naturais, a política industrial, o sistema financeiro, a proteção dos trabalhadores, a educação, a ciência, a tecnologia e as relações internacionais.
Lula recebeu uma nova oportunidade de governar. Ao mesmo tempo, o povo que o reelegeu adquiriu uma nova responsabilidade: acompanhar, cobrar e participar.
O significado histórico dessa vitória dependerá, portanto, do que vier depois dela.
O POVO BRASILEIRO ASSUMIU O COMANDO E REELEGEU LULA.
Essa é a síntese política que emerge desta eleição: não a ideia de que um homem, sozinho, salvou uma nação, mas a de que milhões de cidadãos, diante de uma escolha que consideravam decisiva, fizeram valer seu voto e impediram que o projeto que rejeitavam assumisse o governo federal.
A democracia não é uma concessão dos poderosos. É uma conquista que precisa ser defendida por cidadãos conscientes de seus direitos e de suas responsabilidades.
A soberania não é um slogan para discursos oficiais. É o direito de um povo de decidir seu destino sem tutela estrangeira e sem a submissão de seus interesses coletivos a privilégios particulares.
E a Pátria não é um negócio.
O Brasil não está à venda. Sua bandeira não é mercadoria. Suas riquezas não são um prêmio reservado aos mais poderosos. Seu futuro não pode ser negociado à revelia de seu povo.
Quando uma sociedade compreende que a liberdade política também significa independência nacional, o voto deixa de ser apenas um gesto individual e passa a expressar uma escolha coletiva sobre o futuro.
Foi isso que milhões de brasileiros disseram nas urnas no dia 25 de outubro de 2026.
A Presidência foi conquistada por Lula. A vitória eleitoral, porém, pertence aos cidadãos que fizeram sua escolha. E a soberania que eles defenderam continuará sendo responsabilidade de todos.
CARLOS ALBERTO MORAES | BATATAIS NEWS | 26 DE OUTUBRO






Comentários