Quem se lembra?
- Batatais News
- há 3 horas
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Padre Eloy, Bilú e as histórias que Batatais não esquece.

Há pessoas que passam por uma cidade. E há aquelas que, de algum modo, passam a fazer parte dela.
Mesmo muitos anos depois de terem deixado as ruas, as igrejas, as praças e as conversas do cotidiano, continuam aparecendo nas lembranças de quem ficou. Voltam numa frase, numa história contada durante um café, numa fotografia antiga ou naquele inevitável “você se lembra de quando...?”
Padre Eloy é um desses personagens.
Pároco da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, tinha personalidade forte, opiniões firmes, religiosidade intensa e um jeito muito próprio de exercer o sacerdócio. Não era exatamente daqueles homens que passavam despercebidos.
Quem conviveu com ele guarda histórias de fé, política, festas, solidariedade, provocações, humor e vida cotidiana. E, como toda boa história de cidade, algumas parecem até inventadas. Mas foram vividas, contadas e recontadas por quem estava lá.
E, ao lado de Padre Eloy, quase sempre aparece outro personagem: Bilu, seu cachorro.
Sim, Bilú.
O companheiro de quatro patas acabou ficando tão conhecido que, em Batatais, chegou a participar até de eleições.
Quando Padre Eloy e Bilú viravam candidatos
Era o tempo das cédulas de papel.
Naqueles dias, alguns eleitores encontravam uma maneira bem batataense de acrescentar um pouco de humor ao momento da votação. Em vez de se limitarem aos candidatos oficiais, escreviam outros nomes nas cédulas.

Entre eles, os de Padre Eloy e Bilú.
Alguém escrevia o nome do sacerdote. Outro lembrava do cachorro. Depois vinha o tradicional “X”, como se os dois estivessem concorrendo oficialmente ao cargo.
É claro que aqueles votos não tinham validade eleitoral. Mas a brincadeira se repetia e acabou se tornando uma pequena tradição.
E havia uma razão para isso.
Padre Eloy era uma figura conhecida por praticamente toda a cidade. Estava na igreja, nas ruas, nas festas e, de certa maneira, também na vida pública de Batatais.
Bilú, sempre por perto, acabou herdando um pouco daquela popularidade.
Assim, não era tão estranho imaginar uma apuração eleitoral em que, no meio dos nomes dos candidatos de verdade, aparecessem de vez em quando os nomes de Padre Eloy e Bilú.
Poucos cachorros podem dizer que receberam votos.
Bilú podia.
No púlpito, depois do Evangelho, vinha Batatais
A política também costumava encontrar lugar nas homilias de Padre Eloy.
Quem viveu aqueles anos conta que suas pregações, algumas vezes, pareciam ter duas partes.
Primeiro, o Evangelho. Depois, Batatais.
E, quando chegava essa segunda parte, prefeitos, vereadores e outras autoridades talvez preferissem prestar bastante atenção.
Padre Eloy comentava os problemas da cidade, as dificuldades enfrentadas pela população, decisões administrativas e atitudes dos governantes. Quando entendia que alguma coisa estava errada, não costumava guardar a opinião para si.
Falava. E falava diante da igreja cheia.
Na memória de muitos fiéis, as cobranças não eram feitas por interesse pessoal. Padre Eloy parecia enxergar o púlpito também como um espaço para defender aquilo que considerava importante para a comunidade.
Se uma reivindicação não fosse atendida, havia sempre a possibilidade de o assunto voltar à pauta na próxima homilia. Era uma espécie de cobrança pública antes mesmo de existirem as redes sociais.
A promessa que não resistia à missa
Até a mãe de Padre Eloy conhecia bem esse temperamento. Segundo uma lembrança preservada entre os fiéis, quando ainda era viva, ela teria feito ao filho um pedido bastante simples: “Meu filho, me prometa não falar de política.”
Ele prometia. O problema era chegar a hora da missa. Diante dos fiéis, bastava lembrar-se de alguma situação que considerasse injusta ou de algum problema que precisava ser resolvido para a promessa materna começar a perder força. E lá vinha a política novamente.
A história era contada com certo humor, mas dizia muito sobre o homem que os batataenses conheceram: Padre Eloy tinha dificuldade em ficar calado quando acreditava que alguma coisa precisava ser denunciada, corrigida ou modificada.
Um presépio que fez a Matriz pensar
Padre Eloy também tinha uma maneira muito própria de mexer com as tradições.
Um dos episódios mais lembrados aconteceu quando preparou um de seus primeiros presépios na Igreja Matriz. Quem esperava encontrar apenas a tradicional representação de Belém talvez tenha levado um susto.
Em vez de uma cena idealizada, Padre Eloy montou algo que lembrava uma humilde casa de favela. O cenário foi preparado no espaço onde posteriormente ficariam as imagens de São Sebastião e da Mãe Rainha.
Havia bacias, objetos domésticos simples, um penico e, segundo a memória de alguns fiéis, até uma camisa do Corinthians. O presépio provocou comentários.
E então veio a explicação de Padre Eloy: “Se fosse hoje, Jesus nasceria ali.”
A frase dizia muito. Por trás daquela montagem aparentemente irreverente havia uma mensagem social bastante direta. Ao colocar simbolicamente o nascimento de Cristo numa moradia pobre do Brasil daquele tempo, o sacerdote fazia os fiéis olharem para o Natal por outro ângulo.
Pobreza. Desigualdade. Exclusão.
O presépio deixava de ser apenas uma decoração de Natal. Virava uma pergunta: Onde nasceria Jesus se viesse ao mundo naquele Brasil?
A praça também era extensão da igreja
A vida paroquial não terminava na porta da Matriz.
Havia as quermesses na praça, as festas de Santo Antônio e, mais tarde, a Festa de San Gennaro. Eram dias em que famílias inteiras saíam de casa para encontrar amigos, comer alguma coisa, participar dos jogos, conversar e, naturalmente, tentar a sorte nos bingos e leilões. E havia prendas: Frangos, leitoas, quitutes e outros alimentos preparados especialmente para as festas.
Quem arrematava uma prenda muitas vezes nem precisava levá-la para casa. Improvisava-se uma mesa por ali mesmo, juntavam-se parentes e amigos e começava a festa dentro da festa.
Padre Eloy circulava entre as barracas. Conversava com um, cumprimentava outro, parava aqui e ali. E, quando alguém o convidava para sentar à mesa, a resposta, segundo as lembranças daqueles que viveram esses momentos, costumava ser simples: “Filhinho, vamos comer juntos.”
E lá ia ele. Sentava-se e dividia o frango, a leitoa ou o quitute que alguém acabara de arrematar.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das explicações para a permanência dessas lembranças. Padre Eloy não ficava distante da festa como uma autoridade observando o movimento. Ele estava no meio dele.
Quando a praça virava encontro
As quermesses e, mais tarde, a Festa de San Gennaro, eram muito mais do que eventos para arrecadar dinheiro. Eram encontros.
A praça se transformava numa extensão da igreja. Ali se conversava, comia-se, brincava-se, reencontravam-se amigos e construíam-se histórias que, décadas depois, ainda seriam lembradas.
Padre Eloy fazia parte desse cenário. Andava entre as pessoas, sentava-se com as famílias, conversava e compartilhava a comida.
São gestos pequenos. Mas a memória das cidades costuma ser feita justamente deles.
Não são necessariamente os grandes acontecimentos que permanecem. Às vezes, é um homem puxando uma cadeira e dizendo: “Filhinho, vamos comer juntos.”
Uma oração e uma porta que precisava ser aberta
Há também uma história contada pelo próprio Padre Eloy que revela outro lado de sua atuação.
Segundo o relato feito pelo sacerdote em uma homilia, uma jovem de outra cidade havia chegado a Batatais e começado a trabalhar em um prostíbulo. A responsável pelo estabelecimento teria escondido seus documentos para impedir que ela deixasse o local.
Com ajuda de alguém, a moça conseguiu entrar em contato com uma tia, que também morava em outra cidade. A mulher veio a Batatais e procurou Padre Eloy. O sacerdote, então, teria encontrado uma maneira de entrar no estabelecimento: pediu autorização para fazer uma oração com as mulheres que estavam ali.
A proprietária permitiu. Terminada a oração, segundo a narrativa preservada por seus ouvintes, Padre Eloy conseguiu retirar a jovem do local, entregá-la à tia e ajudá-las a embarcar num ônibus para deixar Batatais.
É importante registrar que não existe, até o momento, documentação independente que permita reconstruir todos os detalhes desse episódio. Trata-se de uma história contada pelo próprio sacerdote e preservada pela memória de quem a ouviu.
Mas, verdadeira em todos os detalhes ou não, a narrativa revela uma imagem que muitos guardaram de Padre Eloy: a de um homem que não entendia seu ministério como algo restrito às paredes da igreja. Quando alguém precisava de ajuda, ele procurava uma maneira de chegar até essa pessoa.
O terço e uma experiência de fé
Outra lembrança pessoal diz respeito à sua relação com o terço. Padre Eloy teria contado aos fiéis que, durante determinado período de sua vida, não tinha grande apreço por aquela oração. Considerava-a repetitiva.
Até que precisou enfrentar uma cirurgia. O medo daquele momento teria mudado sua maneira de enxergar a devoção.
Segundo o relato que ele próprio fazia, enquanto era levado de maca para a sala de cirurgia, teve uma experiência que interpretou como a presença de Nossa Senhora acompanhando-o.
Depois disso, passou a rezar o terço e a olhar para aquela oração de outra maneira. Mais uma vez, trata-se de um testemunho pessoal de fé, preservado pela tradição oral. Não é necessário transformá-lo em prova documental de um acontecimento sobrenatural.
O que importa para a história de Padre Eloy é que ele próprio acreditava naquela experiência e a compartilhava com os fiéis. E isso também faz parte de sua história.
Padre Eloy chegou à televisão?
E como toda cidade gosta de descobrir seus personagens até onde eles conseguiram chegar, Batatais guarda ainda uma lembrança curiosa envolvendo Padre Eloy e a televisão brasileira.
O nome do sacerdote teria aparecido na novela Roque Santeiro, exibida pela Rede Globo em 1985. Segundo a memória de moradores que acompanharam a novela na época, um personagem teria afirmado ser de Batatais e mencionado que havia se casado na Igreja Matriz, numa cerimônia realizada por Padre Eloy.
A lembrança relaciona a cena a personagens interpretados por Tito Moreira França e Patrícia Pillar, e há quem diga que a referência ao sacerdote teria aparecido mais de uma vez.
Existe ainda outra memória, segundo a qual o ator Cláudio Corrêa e Castro teria pronunciado o nome de Padre Eloy em outra novela, cuja identificação ainda não foi localizada.
Na época, circulava entre os batataenses uma explicação curiosa: um conterrâneo conhecido como “João da Globo” teria conseguido inserir referências a Batatais e a seus personagens nos textos televisivos.
São histórias interessantes. Mas precisam ser tratadas como histórias narradas que carecem de documentação. A confirmação dependeria da consulta às gravações, roteiros ou arquivos das novelas. Até que isso aconteça, permanecem no território da memória daqueles que assistiram à televisão brasileira naquele período.
E Bilú?
Mas, afinal, onde entra Bilú em tudo isso? Em praticamente tudo. Talvez o cachorro seja justamente a melhor representação de como Padre Eloy estava incorporado ao cotidiano da cidade.

Sacerdotes costumam ser lembrados pelas missas que celebraram, pelas obras que realizaram, pelas instituições que ajudaram a construir ou pelas pessoas que influenciaram. Padre Eloy também deixou essas marcas.
Mas deixou outras. As pequenas. As histórias que não aparecem nos livros oficiais. As frases. As brincadeiras. Os encontros. Os personagens que caminhavam ao seu lado. E Bilú caminhava. Tão conhecido quanto o próprio dono, o cachorro acabou entrando nas histórias de Batatais. Até nas eleições.
Talvez nenhum outro cão da cidade tenha conseguido tamanho feito. Bilú não tinha título de eleitor. Mas tinha votos.
A memória também escreve a história
É preciso, naturalmente, fazer uma distinção. Essas histórias não pretendem constituir uma biografia completa de Padre Eloy. Muito menos transformar automaticamente toda memória oral em fato documental. São lembranças.
Algumas foram vividas por quem as conta. Outras foram ouvidas de pessoas que estavam lá. Algumas podem ainda ser confirmadas em jornais antigos, fotografias, arquivos paroquiais, documentos, gravações de televisão ou depoimentos de outras testemunhas.
Outras talvez nunca sejam. E tudo bem. A história precisa distinguir o documento da memória. Mas também precisa saber ouvir a memória.
Porque os documentos oficiais registram datas, nomes, decisões e acontecimentos. A memória, por sua vez, guarda aquilo que os papéis quase nunca conseguem registrar: o jeito de falar, a expressão do rosto, uma brincadeira, uma frase dita à mesa, o cachorro que acompanhava o padre pela cidade.
É assim que uma pessoa deixa de ser apenas um nome nos arquivos e passa a fazer parte da vida de uma cidade.
Um homem impossível de resumir
Padre Eloy foi muitas coisas ao mesmo tempo.
O sacerdote que celebrava a missa e, depois do Evangelho, comentava a política.
O homem que cobrava providências das autoridades.
O padre que colocou uma favela dentro da Matriz para fazer os fiéis pensarem sobre o nascimento de Cristo entre os pobres.
O organizador e participante das quermesses.
O homem que sentava à mesa de uma família e dividia o frango ou a leitoa arrematada no bingo.
O sacerdote que contava suas próprias experiências de fé.
O homem que, segundo suas próprias lembranças, procurava ajudar quem precisava.
O personagem que, segundo a memória de seus contemporâneos, chegou a ser citado em novelas da televisão.
E o padre que andava pelas ruas acompanhado de Bilú.
Talvez seja justamente essa mistura de firmeza e simplicidade que explique por que seu nome continua aparecendo nas conversas de tantos batataenses.
Uns se lembram das homilias.
Outros, das cobranças.
Há quem se lembre dos presépios diferentes.
Das festas.
Das barracas.
Dos bingos.
Das mesas improvisadas na praça.
Das histórias contadas durante a missa.
E há aqueles que, quando começam a falar de Padre Eloy, inevitavelmente chegam a Bilú.
Porque algumas pessoas deixam obras.
Outras deixam fotografias.
Outras deixam documentos.
E há aquelas que deixam histórias.
Padre Eloy deixou muitas. Bilú também. E talvez seja por isso que, tantos anos depois, basta alguém perguntar: - Quem se lembra?
Para que Batatais comece novamente a contar.
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FONTE E CRÉDITO
- Relato original: Ana Maria Passos no Facebook.
- Pesquisa complementar: Luis Claret Ferreira
- Redação de Luis Claret Ferreira






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